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Angola: Eleições de 1992 deviam ter sido adiadas por três meses -- general Tomé Pinto (C/ÁUDIO)

Lisboa, 28 mai (Lusa) -- As primeiras eleições multipartidárias em Angola, realizadas em setembro de 1992, deviam ter sido adiadas por três meses, disse à Lusa o general Tomé Pinto, à data representante de Portugal na Comissão para a Criação das Forças Armadas (CCFA).

*** Serviço áudio disponível em www.lusa.pt ***





Lisboa, 28 mai (Lusa) -- As primeiras eleições multipartidárias em Angola, realizadas em setembro de 1992, deviam ter sido adiadas por três meses, disse à Lusa o general Tomé Pinto, à data representante de Portugal na Comissão para a Criação das Forças Armadas (CCFA).

A criação da CCFA, com representantes de Portugal, França e Reino Unido, resultou dos Acordos de Bicesse, assinados faz 20 anos no próximo dia 31, e que abriram as portas às primeiras eleições multipartidárias, pondo termo a 16 anos de um conflito fratricida entre as forças de Luanda e as da UNITA.

A não aceitação pela UNITA dos resultados eleitorais, que deram a vitória nas legislativas ao MPLA e na primeira volta das presidenciais ao candidato deste partido, José Eduardo dos Santos, conduziu de novo o país à guerra civil.

Em entrevista à Lusa, o general Tomé Pinto considerou que os atrasos acumulados ao longo das conversações políticas obrigaram a "uma aceleração no final (da formação) das Forças Armadas Angolanas".

"As FAA não estavam maduras. Não tivemos tempo de consolidar o equilíbrio", que era garantir a presença de militares provenientes pelo MPLA e pela UNITA nas estruturas superiores e intermédias da instituição.

"Admitia que o processo político, apesar de tudo, corresse bem, que não houvesse aquele conflito que houve", adiantou.

Militar com destacada folha de serviços, o general Tomé Pinto classificou o trabalho que desenvolveu a partir de 13 de junho de 1991 em Angola, como uma "missão muito difícil".

O arranque das Forças Armadas Angolanas (FAA) começou bem, apesar da desconfiança natural acumulada após 16 anos de guerra civil.

Imediatamente logo após a chegada a Angola, a 13 de junho de 1991, Tomé Pinto lançou mãos à obra, com os generais João de Matos, do lado governamental, e Demóstenes Amos Chilingutila, da UNITA, para dotar os angolanos de forças armadas unificadas, nos termos dos Acordos de Bicesse, assinados duas semanas antes.

"Eles também estavam a ver onde é que aquilo ia. Genuínos, tentavam defender os seus pontos de vista, mas também queriam saber do adversário. Estavam em trincheiras opostas, com mentalidades diferentes", recordou.

Os sobressaltos iniciais partiram da dependência que os militares dos dois lados mantinham relativamente ao setor político.

"As coisas começaram a correr bem. Comecei a sentir que eles também estavam sequiosos da paz. Agora de um lado e do outro estavam sempre às ordens do chefe. Isso aí, santa paciência. Não eram autónomos", destacou, relevando o ascendente dos políticos sobre aqueles generais e demais oficiais superiores.

Aos atrasos acumulados, sobretudo por culpa dos políticos, a nível da Comissão Conjunta Político-Militar (CCPM), juntou-se a ansiedade com o aproximar da data das eleições, como previsto nos Acordos e a recusa da UNITA em aceitar a derrota nas urnas, além da falta de coesão das FAA, precipitou Angola novamente na guerra fratricida.

"Aqueles conflitos. Ainda hoje não sei quem é que começou. Sinceramente não sei como. A verdade é que as forças armadas não estavam preparadas e foi a polícia que aguentou os primeiros embates. Só depois as FAA é que se reorganizaram, aceleraram o processo, chamaram mais gente e passados dois meses (novembro de 1991) estavam a tomar conta da situação", assinalou.

A Angola atual merece-lhe "confiança" mas também uma reflexão: "Ainda precisa de tempo para criar a sua classe média. Tem meios, tem capacidades, tem elementos humanos, tem tudo para a fazer. Se o fizer, terá equilíbrios, se não fizer pode haver desequilíbrios."





EL.





Lusa/Fim

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