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Peça de Lillian Hellman no Teatro Aberto deixa "entrever os jogos de poder"

O Teatro Aberto, em Lisboa, estreia, na sexta-feira, a peça "As raposas", de Lillian Hellman, uma obra que "nos deixa entrever os jogos de poder", disse à Lusa o responsável da companhia, João Lourenço, que encena o drama.

teatroaberto.com

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A peça, com dramaturgia de Vera San Payo de Lemos, conta com os desempenhos de Diana Nicolau, Eurico Lopes, Gracinda Nave, João Perry, Luísa Cruz, Marco Delgado, Pedro Caeiro, Sofia Cabrita e Virgílio Castelo.

No palco de Palhavã é apresentada uma versão que "transporta para os nossos dias a ação desta peça de 1939, salientando as paixões desencadeadas pela ânsia de poder e de dinheiro, e que questiona os valores que regem as sociedades globalizadas em que vivemos", disse à Lusa fonte do Teatro Aberto.

Em declarações à Lusa, João Lourenço afirmou: "O discurso político está dominado por códigos económicos e não se sabe o que está por trás. Esta peça, centrada numa família de grandes proprietários ligados à banca, que é um microcosmos da nossa sociedade, deixa-nos entrever os jogos de poder e o que se passa atrás dessa linguagem cifrada dos números, que afeta brutalmente a nossa vida quotidiana".

A peça "As raposas" aborda o universo de uma família muito rica, que quer expandir o seu negócio para aumentar o seu capital e, assim, realizar tudo aquilo que o dinheiro parece poder comprar, explicou fonte do teatro.

"Na luta pelo poder dentro da família, revelam-se diferentes maneiras de pensar e agir: quem olha a meios e quem só olha a fins, quem se adapta ao presente, quem se agarra ao passado, quem vence pela força e quem espera pelo momento certo, quem é pragmático, quem escuta o coração. No fim, quem leva a melhor", rematou a mesma fonte.

Esta peça foi escrita por Hellman, em 1939, tendo estreado nesse ano na Broadway, em Nova Iorque, com grande sucesso, uma década após a crise financeira que deu origem à Grande Depressão dos anos de 1930. 

Posteriormente foi adaptada ao cinema, por William Wyler, com Bette Davis, como protagonista, no filme "The litle foxes" (1941), que se estreou em Portugal como "Raposa matreira".

Em 1966, já com o título "As raposas", a peça subiu ao palco do Teatro Villaret, em Lisboa, numa encenação de Rogério Paulo, com Maria Lalande, como protagonista, acompanhada de Eunice Muñoz e de João Perry, ator que agora regressa ao drama.

"An Unfinished Woman", "The children's hour", "Toys in the attic" estão entre as principais obras da escritora norte-americana Lillian Hellman (1905-1984), que se destacou em particular como argumentista e dramaturga, mas que também foi crítica literária do jornal New York Herald Tribune.

Muitas das suas peças foram adaptadas ao cinema, por realizadores como William Wyler e Lewis Milestone.

A sua peça de estreia, "The children's hour", estreou-se com grande êxito, na Broadway, em 1934. Baseia-se num caso verídico, ocorrido na Escócia, através do qual a dramaturga desafia preconceitos de época sobre a infância e a sexualidade. A obra daria origem ao filme de Wyler "A infame mentira".

"Days to come", que levou à cena posteriormente, não teve grande sucesso de bilheteira, o que levou a escritora a viajar pela Europa, regressando aos Estados Unidos em 1939, para estrear "As raposas".

A ascensão nazi, na Alemanha, que testemunhou diretamente, inspirou alguns dos seus dramas e textos autobiográficos, como "Pentimento", na base do filme "Júlia", de Fred Zinnemann, com Jane Fonda e Vanessa Redgrave, um dos mais fortes candidatos aos Óscares de 1977.

No final da década de 1940, foi chamada a depor no âmbito do Comité sobre Atividades Anti-Americanas.

É a autora do libreto da ópera "Candide", de Leonard Bernstein.

"Talvez", texto autobiográfico na qual perpassa a relação com o marido (o escritor Dashiell Hammet, autor de "A chave de vidro"), é a única obra da escritora atualmente disponível no mercado livreiro português.  

Lusa
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