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Tolentino Mendonça tem um sonho que é ver o silêncio Património Imaterial

O vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa José Tolentino Mendonça disse hoje ter um sonho, que é o de ver um dia o silêncio ser consagrado como Património Imaterial da Humanidade.

Na conferência de abertura do Correntes d'Escritas deste ano, na Póvoa de Varzim, no distrito do Porto, Tolentino Mendonça afirmou, sob o título de "O silêncio dos livros", que "o silêncio também é uma escola de paz, de reconfiguração do real".

"Nesse sentido, um sonho meu que aqui partilho é ver um dia o silêncio declarado Património Imaterial da Humanidade. Porque nós declaramos património as grandes construções, o canto, todas as coisas associadas à expressão, e esquecemo-nos que o silêncio também é uma forma de expressão extraordinária e que, no silêncio, experimentamos muitas vezes uma comunhão, uma proximidade, que nenhuma palavra do mundo é capaz de nos fazer sentir", disse o também consultor do Conselho Pontifício para a Cultura.

Perante um Cineteatro Garrett cheio, Tolentino Mendonça disse que as sociedades ocidentais estão a atravessar uma "silenciosa mudança de paradigma": "O excesso de emoções, de informação, de expectativas, de solicitações, está a atropelar a pessoa e a empurrá-la para um estado de fadiga de onde é cada vez mais difícil retornar".

Ao mesmo tempo e nesse contexto, Tolentino Mendonça recorreu a Susan Sontag por diversas vezes, em particular para abordar o discurso mediático: "Nós vivemos na sociedade do comentário e vemos hoje isso levado quase à loucura no espaço público português, onde, do futebol à política à cultura, vivemos na sociedade do comentário".

O também escritor sublinhou que "os livros estão cheios de memória, dos cheiros, dos tatos, daquilo que se dá e se recebe e não recebe, dos sabores, das visões [que iluminam ou aterrorizam]".

Questionado pelo político Manuel Alegre, que participa na primeira mesa redonda de hoje, sobre, no domínio do silêncio, se o derradeiro poema não é o que fica por dizer ou escrever, Tolentino Mendonça respondeu: "Um escritor é um bicho silencioso. Mesmo um animal político como o Manuel Alegre é um bicho silencioso como poeta. Seguramente porque é da ruminação desse silêncio que o encontro profundo com a palavra pode acontecer".

Lusa

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