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Inéditos de Herberto Helder chegam às livrarias com "Letra aberta"

"Letra aberta", livro de inéditos de Herberto Helder, é publicado hoje, quando se completa a passagem de um ano sobre a morte do poeta, anunciou a Porto Editora, que adiantou estar em curso a digitalização do espólio do escritor.

Herberto Helder morreu na noite de 23 para 24 de março do ano passado, na sua casa, em Cascais.

Herberto Helder morreu na noite de 23 para 24 de março do ano passado, na sua casa, em Cascais.

"Não tenho nenhuma lei nem regra/ para desordenar um poema escrito/ não tenho mais que o desejo de tocar-te/ ó coisa inúmera que entretanto/ além de tocar/ conto e reconto/ continuadamente", lê-se no poema de abertura do novo volume, antes de, páginas à frente, se encontrar o elogio à "beleza sem gramática", o "ferocíssimo esplendor" do poema.

"Este é um livro de poemas inéditos, recolhidos nos cadernos [do escritor], cuja edição é de tiragem única, de acordo com o que sempre foi a vontade do autor", lê-se no comunicado da editora que anuncia a preparação da edição crítica da obra de Herberto Helder e a digitalização do seu espólio.

Esta "não se trata da edição crítica que a obra inédita de Herberto Helder merece e que certamente será publicada no futuro, agora que o seu espólio está a ser integralmente digitalizado", lê-se no comunicado. "'Letra Aberta' é uma escolha realizada pela viúva do poeta, que permite uma primeira abordagem à riquíssima 'oficina' a partir da qual foi construindo o seu 'poema contínuo'".

A Porto Editora informou ainda, quando do anúncio da publicação de "Letra aberta", ter chegado a acordo com a editora Tinta-da-China, para a publicação de toda a obra de Herberto Helder no Brasil.

Herberto Helder morreu na noite de 23 para 24 de março do ano passado, na sua casa, em Cascais, e é recordado pelo meio literário e político como o "mago da palavra", poeta "vulcânico" que se remeteu ao silêncio, mas cuja obra deixa marcas na literatura portuguesa.

Discreto, avesso ao lado mais mundano da vida literária, sobrevivem-lhe mais de cinquenta obras, sobretudo poesia, que o inscrevem no reservado espaço dos maiores poetas de Língua Portuguesa.

Autor que "fugiu à banalidade", Herberto Helder foi um "mago da palavra" que "tirou magia em tudo que tocava", afirmou no dia da sua morte o catedrático de Literatura Arnaldo Saraiva. Um poeta inovador que criou "uma nova linguagem, que é verdadeiramente mágica e esplendorosa", acrescentou o jornalista José Carlos Vasconcelos.

Nascido na Madeira, em 1930, Herberto Helder viveu quase sempre no continente, desde a adolescência, teve vários ofícios - operário, repórter de guerra, editor, empacotador, bibliotecário - mas o da escrita foi o mais constante, desde que publicou o primeiro livro, "O Amor em visita", em 1958.

O crítico Pedro Mexia identifica-lhe uma apropriação da palavra sem desconfianças, ironias ou cinismos e considera-o, por essa força verbal, o maior poeta da segunda metade do século XX, tal como Fernando Pessoa o foi no começo daquele século.

Herberto Helder deu a última entrevista em 1968, recusou o Prémio Pessoa e editou, em 2014, o livro "A morte sem mestre".

No ano passado, após a sua morte, foi publicado o último livro organizado pelo autor, "Poemas canhotos".

Foi "um mestre" para outros escritores, como o poeta Nuno Júdice admitiu, no dia da morte de Herberto Helder, um "poeta tão diferente, tão vulcânico" que mostrou "tudo o que é mágico e inexplicável na poesia", disse por seu turnmo, o catedrático da Universdade Nova de Lisboa, Fernando Pinto do Amaral.

Lusa

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