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Dois jornalistas escrevem "Heróis Anónimos" com "ajuda" de tartaruga

Dois jornalistas investigaram, mergulharam em arquivos e passaram meses de máscara e luvas, num armazém em Pendão, arredores de Lisboa, durante quatro anos, para escrever "Heróis Anónimos". E uma tartaruga "ajudou".

Mário Carvalho - Jornalista

Mário Carvalho - Jornalista

O livro "Heróis Anónimos: Jornalismo de Agência (a história da ANOP e NP, 1976-1986)" é apresentado na terça-feira, em Lisboa, no mesmo local onde funcionou a Agência de Notícias ANOP, por Wilton da Fonseca e Mário de Carvalho, antigos jornalistas das agências de notícias portuguesas.

O livro, de mais de 500 páginas, é uma investigação sobre a ANOP e a NP, as duas agências que, fundidas, deram lugar à Lusa (que comemora este ano o 30.º aniversário), e, através delas, faz um retrato do país de 1975 a 1996, como diz no prefácio o político socialista Jorge Lacão.

Lacão diz também que o livro é uma "saga", de uma comunicação social "lutando por desempenhar essa função estruturante da liberdade, que é a da realização do direito a informar e a ser informado", na qual é visível "quanto as mutações políticas influenciaram o destino das agências noticiosas, sempre dependentes, ontem como ainda hoje, do patrocínio financeiro público".

E mostra "instrumentalizações demasiado óbvias, quase sempre da responsabilidade direta ou indireta do poder político", sendo que hoje as ameaças, "mais difusas ou concentradas, têm a sua sede principal nos poderes económicos privados, titulares maioritários dos meios de comunicação social", embora não sejam negligenciáveis as influências político-partidárias, diz ainda.

Basicamente, "Heróis Anónimos" conta a história da criação, ascensão e queda da ANOP, a criação da NP e a coexistência de duas agências, até à fusão e criação da Lusa, há 30 anos.

E os "heróis", dizem os autores, são todos os jornalistas e funcionários das agências de notícias, nas quais a "regra fundamental" sempre foi o anonimato.

"Houve grandes jornalistas que trabalharam anos e anos em agência e são muito menos conhecidos do que outros que passaram seis meses por uma televisão", diz à Lusa Wilton da Fonseca, que chegou a ser diretor de informação das duas agências, ANOP e NP.

E acrescenta Mário de Carvalho: "O anonimato continua a ser uma regra de ouro. O livro é uma homenagem a todos os jornalistas de agência", os que, nas palavras de Wilton, "nada sabem e tudo perguntam".

Nomes como Joaquim Letria, Maria Antónia Palla, Helena Vaz da Silva, António Mega Ferreira, Marinho e Pinto ou Isabel Oneto foram jornalistas de agência, recorda Wilton da Fonseca, salientando que esse facto é conhecido de poucos.

"Heróis Anónimos", avisa o autor, não é um livro científico, mas sim um livro especializado, para jornalistas, para estudantes e estudiosos, e para o público que não sabe o que é uma agência de notícias, que pensa "que as notícias aparecem no Facebook e noutras redes sociais".

E não sabe, por exemplo, continua Wilton da Fonseca, que foi mau o que se fez com a ANOP, uma agência que dois governos tentaram destruir e que levou 37 anos a ser extinta.

Por isso, contrapõe Mário de Carvalho, "é importante recuperar a memória" e perceber que o espírito de Agência perdura até hoje, na Lusa.

A memória das guerras políticas mas também da evolução tecnológica, acrescenta Wilton da Fonseca, exemplificando: quando cheguei ao jornal O Século marcou-me o silêncio, os jornalistas escreviam à mão, mas, em 1975, no Jornal Novo, já havia máquinas de escrever elétricas.

Os computadores apareceram na ANOP em 1982 e, nessa altura, em que não havia muitos telefones, era importante andar sempre com moedas, para mandar as notícias de cabines públicas, recorda.

Ainda assim, os dois consideram que foram experiências interessantes, coisas novas. Embora no passado, como hoje, a Agência não tenha sabido aproveitar o espaço lusófono, defende Mário de Carvalho.

É assim a primeira frase do livro: "O Estado português nunca conseguiu perceber a importância estratégica que uma agência noticiosa pode representar para um país com interesses políticos tão diversos e geograficamente tão dispersos como Portugal."

E depois são 518 páginas de informações, de documentos, de opiniões também. Graças a quatro anos de trabalho e muitos meses num armazém que acumula arquivos e muito pó.

E que só não acumula mais insetos, como a traça dos livros, porque a tartaruga do zelador é uma visita constante. Wilton gostaria que ela estivesse presente na terça-feira.

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