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Realizador Michael Haneke contra "histeria e caça às bruxas" do movimento anti-assédio

Stephane Mahe

O realizador Michael Haneke classificou o movimento de denúncia de assédio sexual, desencadeado no mundo do cinema a partir das revelações sobre o produtor Harvey Weinstein, como uma "caça às bruxas" que levou a um novo "puritanismo anti-homem".

Multipremiado, quer nos Estados Unidos quer na Europa, com, por exemplo, duas Palmas de Ouro, Haneke disse, em entrevista ao diário austríaco Kurier, que a "histeria de denunciar prematuramente é repugnante". Em particular, o realizador disse ficar incomodado com o que considera ser um "total rancor sem qualquer reflexão e uma raiva cega, não baseada em factos, mas que destrói as vidas de pessoas cujos crimes não foram provados"."Pessoas têm sido mortas nos meios de comunicação, vidas e carreiras destruídas", declarou.

Haneke disse ainda que "enquanto artista, uma pessoa começa a ser confrontada com o medo perante esta cruzada contra qualquer forma de erotismo", dando como exemplo o filme japonês "O império dos sentidos", de 1976, que, segundo Haneke, "não poderia ser filmado hoje". "Desde logo, qualquer forma de violação ou abuso sexual deve ser punida. Mas esta histeria e as sentenças sem processo a que assistimos hoje parecem-me repugnantes", disse.

A entrevista de Haneke surge no mesmo fim-de-semana em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que "simples acusações" estão a destruir a vida de pessoas, na sequência das demissões de dois funcionários da Casa Branca acusados de violência doméstica."A vida de pessoas está a ser destruída por simples acusações. Algumas são verdadeiras e outras são falsas. Algumas são velhas e outras novas. Não há recuperação possível para alguém que tenha sido falsamente acusado: a sua vida e a sua carreira acabam. Será que já não existe um processo devido", escreveu, no Twitter Trump, ele próprio alvo de múltiplas acusações de assédio desde alturas da campanha presidencial.

Dezenas de mulheres, incluindo as atrizes Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Mira Sorvino, Ashley Judd, Léa Seydoux, Asia Argento e Salma Hayek denunciaram uma série de episódios diferentes, que vão desde presumíveis comportamentos sexuais abusivos a acusações de violação por parte do produtor Harvey Weinstein, galardoado com um Óscar pela produção de "A Paixão de Shakespeare" (1998).

Desde que foi divulgado o caso, vários escândalos relacionados com acusações de assédio, agressão sexual e até mesmo de violação foram denunciados em vários países do mundo.

Entre os acusados estão figuras como os atores Kevin Spacey e Dustin Hoffman, o ex-presidente da Amazon Studios Roy Price, os realizadores Brett Ratner e James Toback, os jornalistas Charlie Rose, Glenn Thrush e Matt Lauer, o fotógrafo Terry Richardson e o comediante Louis C.K..

Em novembro, a revista norte-americana Time nomeou como "Personalidade do Ano" as pessoas que, nos últimos meses, denunciaram casos de assédio e abuso sexual, num movimento coletivo denominado "#MeToo", surgido nos Estados Unidos.

Já este ano, no dia 1 de janeiro, foi anunciado o projeto "Time's Up" para apoiar a luta contra o assédio sexual, por mais de 300 atrizes, argumentistas, diretoras e outras personalidades ligadas ao cinema, entre as quais as atrizes Cate Blanchett, Ashley Judd, Natalie Portman e Meryl Streep, a presidente da Universal Pictures, Donna Langley, a escritora Gloria Steinem, a advogada e ex-chefe do Gabinete de Michelle Obama, Tina Tchen, e a copresidente da Fundação Nike, Maria Eitel.

Lusa

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