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Académico britânico alerta para perigos da reestruturação da dívida

Adair Tuner, presidente do Institute for New Economic Thinking, disse hoje que as reestruturações das dívidas podem criar uma nova recessão ainda "mais profunda" a nível mundial.

© Kai Pfaffenbach / Reuters

"Há tanta dívida no mundo, que creio que no futuro ou teremos reestruturações significativas e incumprimentos ou formas de quase monetização da dívida de bancos centrais", afirma o britânico Adair Turner, em entrevista publicada hoje no Jornal de Negócios, acrescentando que, no entanto, é muito difícil baixar o nível total da dívida transversalmente em toda a economia sem que se corram riscos de uma recessão mais profunda.

Foi isso que, "em termos muito gerais fizemos na Europa e nos Estados Unidos entre 1929 e 1933 e não acabou bem, As reestruturações e falências podem criar uma espiral negativa significativa que acabará por terminar em algum ponto no longo prazo. Mas o longo prazo deu-nos Hitler. Não podemos esperar", afirma Turner, autor do livro "Entre a Dívida e o Diabo", que vai ser lançado em Portugal no dia 27 de junho.

O presidente do Institute for New Economic Thinking, organismo integrado no centro de investigação George Soros, foi durante cinco anos o responsável máximo da entidade de regulação britânica para o setor financeiro (Financial Services Authority).

Na entrevista ao Jornal de Negócios, Turner diz também que o "capitalismo não precisa de desigualdade ilimitada para crescer", sublinhando que a dimensão da dívida faz prolongar a crise financeira mundial.

"A razão pela qual estamos a ter tanta dificuldade em recuperar da crise é a quantidade muito grande da dívida no mundo. Dívida que, em muitos casos, começou como privada e acabou pública e da qual não nos conseguimos livrar", diz.

Para Adair Turner, numa economia com desigualdade crescente, o sistema "só equilibra" se as grandes poupanças dos muito ricos forem emprestadas através do sistema financeiro aos mais pobres, para comprarem casas, "tentando dessa forma compensar o facto de os seus salários permanecerem estagnados".

Considerando que o "capitalismo não precisa de desigualdade sem fim para crescer", Turner explica que o aumento "da desigualdade" torna o crescimento mais instável e propenso a aumentos de créditos e dívida que "acabam nas voltas dramáticas" registadas em 2007 e 2008.

Referindo-se às desigualdades e aos desequilíbrios mundiais, Adair Turner diz também que a "história" que é contada na Zona Euro até à crise foi a de que a dívida estava a fluir dos países excedentários como a Alemanha ou a Holanda para financiar "capital útil" no sul do continente e que, dessa forma, o processo de convergência de Portugal e Espanha seria "acelarado".

"Infelizmente, em retrospetiva, sabemos que muita desta dívida alimentava um 'boom' no mercado imobiliário e em outros ativos já existentes, o que envolveu um grande desperdício de capital e gerou dívidas insustentáveis", explica o presidente do Institute for New Economic Thinking.

Por outro lado, Turner receia que a Zona Euro venha a permanecer "encurralada por muitos anos" e aponta como soluções um orçamento federal que "não precisa de ser tão grande como os cerca de 20 por cento do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos".

"A situação na Zona Euro é tão profunda que, para sair dela, precisamos de um estímulo orçamental lubrificado por dinheiro do banco central. Mas a probabilidade de que isso aconteça é muito baixa", frisa, concluindo que o Reino Unido "perderá influência" se abandonar a União Europeia, na sequência do referendo que se vai realizar este mês.

Adair Turner vai estar em Portugal, onde vai apresentar o livro "Entre a Dívida e o Diabo", a convite da Associação Portuguesa de Fundos de Investimeno.

Lusa

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