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O caminho mais longo para o Alasca

O caminho mais longo para o Alasca

O caminho mais longo para o Alasca

"Chovia torrencialmente e ele deixou-nos no único local onde havia um telhado para dormir, a lixeira"

Deixámo-los em Bali, na Indonésia. Na Austrália e Nova Zelândia deu-se o ponto de viragem no percurso. Voltaram a comunicar em inglês e o desafio era não gastar um único dólar em transportes. Pelo caminho separaram-se e reencontraram-se. Viveram momentos difíceis entre aborígenes australianos e, um deles, teve que esperar que uma mulher desse à luz para seguir caminho. Apanharam boleias de ambulâncias e de carros do lixo. Chegaram mesmo a dormir numa lixeira local. São estas, entre muitas experiências que, dizem, os vão enriquecendo.

Em 2015 Fernando Vaz estudou na Nova Zelândia e conheceu a Austrália. O regresso era, portanto, muito aguardado. Andou à boleia e deixou muitas expetativas aos amigos. Na chegada à Austrália tinham o objetivo de não gastar dinheiro em transportes públicos e fazer todo o percurso à boleia. Enquanto superavam o desafio, acumulavam episódios insólitos. Enquanto João Pedro Carvalho e Fernando Vaz percorriam o deserto australiano, Alex Bissell viajava pela costa.

À partida o deserto não seria fácil. As histórias que conheciam sobre desacatos levados a cabo por aborígenes na zona norte do país também não ajudou. Ouviram histórias sobre ataques a turistas e vários distúrbios causados pelo consumo de álcool e drogas. Foi numa noite em que acampavam debaixo de um posto de informação turística que João Pedro Carvalho acordou em sobressalto. "Acordei com um carro mesmo à nossa frente. O Fernando dormia. Pareceram-me alcoolizados, falavam na língua deles mas em inglês disseram "o que fazem eles aqui?". Deram várias voltas às tendas. Mantive-me quieto à espera que algo acontecesse. Após largos minutos foram embora. Eu já tinha a minha faca pronta." Mas nem todas as experiências foram más, "ontem um aborígene deu-nos boleia e dormimos em casa dele. Nasceu no mato e aprendeu tudo acerca de caça e sobrevivência. No passado roubou, vendeu drogas, andava com milhares de dólares no bolso e está proibido de entrar em alguns países. Foi apanhar lagostas connosco e explicou-nos como se sobrevive ali", relatou João Pedro Carvalho.

Enquanto isso, Alex Bissell vivia alguns momentos marcantes ao longo da costa australiana. O interesse de Stephen e da sua esposa por Portugal levou-o a convidar o jovem português para passar alguns dias em sua casa onde Bissell teve comida, cama e ajudou na reparação da casa por uns dias.

Antes do reencontro em Sidney, Fernando Vaz e João Pedro Carvalho mataram saudades de casa. "A nossa boleia largou-nos num bairro português. Dois homens sentados à "tuga" chamaram-nos: "Oh, sportinguistas!" porque viram as nossas camisolas do Sporting e do Benfica. Foi brutal, o bairro tinha tudo o que queríamos. Almoçámos num restaurante português onde bebemos café, cerveja e comemos arroz doce. Soube-nos pela vida.", conta Fernando Vaz com entusiasmo.

O reencontro com Alex Bissell "foi incrível. Estarmos juntos após três semanas afastados foi uma emoção muito grande para todos."

De Sidney seguiu-se a tão esperada Nova Zelândia. "Todo o meu regresso foi incrível, estive com amigos que nunca imaginei voltar a ver." Além de reviver memórias Fernando Vaz diz que o episódio da região do Milford Sound foi um marco na viagem.

O processo de pedir boleia ocorre com algumas regras pois muitas vezes quem pára o carro na berma da estrada não tem lugar para os três. Assim, fazem turnos rotativos de meia hora e, enquanto um pede boleia, os outros jogam às cartas. Quando acontece não haver lugar para um, segue quem pediu a boleia e o outro elemento do grupo é sorteado. Para eles é indiferente quem vai. Quem fica, por vezes, passa por mais um longo período de espera.

Para o Milford Sound calhou a João Pedro Carvalho seguir viagem com o Fernando. "O Milford Sound é um lugar incrível com cascatas, florestas, montanhas e muita água. A parte gira foi quando nos separámos. Passou um camião do lixo que fez as suas paragens até Milford Sound. Pelo caminho perguntei ao senhor se conhecia alguém que nos conseguisse uma viagem gratuita no cruzeiro do fiorde, expliquei que tínhamos pouco dinheiro e os bilhetes são caros. Ele ficou de investigar. Entretanto, também não tínhamos sítio onde dormir. Chovia torrencialmente e ele acabou por nos deixar na única zona onde havia um pequeno telhado, na lixeira. Dormimos lá, dormimos no lixo." Segundo contam, terá sido uma noite tranquila e sem maus cheiros. No dia seguinte o senhor do lixo estava de volta com boa notícias para os jovens portugueses. Bilhetes gratuitos para o cruzeiro no fiorde e uma boleia garantida por mais 200 quilómetros.

Alex Bissell não lamenta o facto de não ter dormido com os amigos na lixeira pois também passou por uma viagem caricata. Depois dos amigos terem seguido caminho, Bissell aguardou por nova boleia e quem o "apanhou" garantiu-lhe viagem de largos quilómetros, até Auckland. "Passados uns minutos o senhor recebeu um telefonema do hospital. A esposa tinha entrado em trabalho de parto. Pediram-lhe para ir de imediato para lá. Ele virou muito rápido na estrada e levou-me para o hospital. Fiquei com ele à espera. Era uma rapariga e ele estava bastante feliz. Foi um momento de partilha muito bom com o qual não contava. Depois disse-me que, tal como tinha prometido, me levaria até ao meu destino. E levou."

Amante da natureza e desportos radicais, João Pedro Carvalho gostaria de regressar à Nova Zelândia para praticar outras atividades além do surf. O país deixa-lhe na memória os trilhos que fez com os amigos. O momento que chegou ao cume de uma montanha e observou a paisagem foi a recompensa após uma longa caminhada com o peso da mochila às costas.

Ao longo da viagem são obrigados a tomar decisões e, pelo que contam, uma das melhores que tomaram durante a estadia na Nova Zelândia foi acamparem num local completamente isolado. Num enorme quadro pintado de montanhas, um vale e um rio de água gelada, os amigos ficaram por ali com o objetivo entrarem em pleno contacto com aquela beleza natural. "Foi giro, estivémos no meio do nada, tomámos banho no rio de água gelada", conta João pedro Carvalho que absorveu o momento "pela experiência de estarmos sem ninguém, a viver com o mínimo, cozinhar na fogueira e tomar banho no rio gelado."

Terminada a etapa da Nova Zelândia, que superou as elevadas expetativas que tinham, seguia-se um local que, à partida, não lhes despertava grande curiosidade. Seguiu-se o Tahiti. Aos 22 anos, estavam prestes a aterrar nas praias paradisíacas da Polinésia Francesa mas isso não os fascinava. Na opinião de Fernando Vaz há muitas "ilhas bonitas e praias paradisíacas pelo mundo fora: o Bazaruto, em Moçambique, as Maldivas, etc". Mas a viagem acabou por ser uma boa surpresa. Porquê? As pessoas. "O que me espantou foi a amabilidade desde o primeiro dia. É uma energia diferente porque as pessoas são super felizes com o sítio onde vivem e fazem questão de partilharem a sua felicidade com os outros." O que João Pedro Carvalho mais absorveu durante a estadia no Tahiti foi "a maneira simples de viverem e a forma como nos transmitiram esses valores. Nenhum deles se preocupa com dinheiro. Terminam o dia a surfar e a pescar todos juntos."

O episódio da Polinésia Francesa terminou mais cedo para Alex Bissell e João Pedro Carvalho. Do Tahiti voaram para Los Angeles, nos EUA. Já Fernando Vaz tinha uma missão a cumprir na Polinésia, antes de aterrar na América do Norte. A Ilha de Páscoa. O isolamento da ilha e o património cultural, envolvendo os Maois gigantescos e os Rapanuis fascinavam-no. "Não tinha hotel e não queria pagar o campo de campismo. Saí do pequeno aeroporto que faz apenas um voo diário para Santiago do Chile e um semanal para o Tahiti. Do outro lado da estrada havia uma casa. Perguntei à proprietária se podia pernoitar no jardim dela por quatro dias. Expliquei que tinha tenda e não precisava de nada. Ela foi incrível, todos os dias me levava o pequeno-almoço. Foi de uma amabilidade única. Os momentos mais marcantes desta viagem foram, sem dúvida, estar próximo das enormes estátuas da Ilha de Páscoa que são de uma imensidão tão incrível que se torna impossível transmitir em foto. Por fim, foi o momento em que me despedi da senhora Jimena."


Toda esta viagem gira em torno de um objetivo. O Alasca. Inspirados pelo filme "Into the Wild", os três jovens portugueses têm metade da viagem feita. Estão cansados mas muito motivados para continuar rumo ao "Magic Bus". Antes disso, não haverá descanso. Os EUA e o Canadá ainda lhes vão trazer muitas supresas.

Acompanhe-os no Especial "O Caminho mais longo para o alasca" ou na página do facebook The Longest Way to Alaska .

Bárbara Gonzalez Gomes

  • "Jantámos porco, arroz e sapos"

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    Novembro de 2015. Fernando Vaz e João Pedro Carvalho partiram de Lisboa e Alex Bissell da Escócia. Encontraram-se em Londres. O primeiro destino dos três amigos era o Sri Lanka. A partir daí, seguiu-se a Tailândia, o Laos, Vietname, Cambodja e Myanmar. Em cada lugar, pelo menos uma história têm para contar. Uma das mais marcantes foi uma viagem pela selva do Laos. Andaram perdidos, eles e os guias. Choraram e riram. Acabaram a noite a dormir em folhas de bananeiras e a comer sapos.

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    Alex Bissell, João Pedro Carvalho e Fernando Vaz têm 22 anos e são amigos há mais uma década. Consideraram esta a altura certa para uma pausa antes da entrada no mercado de trabalho. Decidiram entrar juntos numa aventura: viajar pelo mundo à boleia. Os planos de viagem acabam por ser alterados, alguns desvios são feitos e, por vezes, separam-se. Porque se um quer fazer surf ou mergulho numa praia australiana, não há que impedir o outro de conhecer Myanmar ou a Ilha de Páscoa.

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    The Longest Way to Alaska é a viagem de três jovens portugueses. Estão juntos numa volta ao mundo e, sempre que possível, andam à boleia. Começaram em novembro, em Londres, e já passaram em 12 países. De Inglaterra ao Sri Lanka, de Myanmar ao Laos, sem esquecer a Austrália, a Nova Zelândia, os EUA e a Islândia. Têm vivido histórias surpreendentes com pessoas que, provavelmente, nunca voltarão a encontrar. Ou, quem sabe, talvez as encontrem do outro lado do mundo.

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