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Campanha Antártica Portuguesa

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"Fiquei impressionado com investigação que se faz na Antártida"

A convite do Instituto Antártico Chileno (INACH), que tem sido um dos mais importantes parceiros dos portugueses na logística das campanhas antárticas nacionais, Paulo Pereira, visitou no início deste ano várias bases científicas do Chile, mas também da Argentina, Espanha, EUA e Reino Unido, em vários locais da Antártida. A SIC entrevistou Paulo Pereira, vogal do Conselho Diretivo da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a propósito da Grande Reportagem "Laboratório Antártida".

"Laboratório Antártida" é uma Grande Reportagem para ver no Jornal da Noite, hoje - e  em versão interativa, com conteúdos extra exclusivos, nos sites da SIC, do Expresso, da Visão e da Activa. 
 

Fará sentido Portugal investir mais em investigação científica nacional na Antártida? O que o País tem a ganhar com isso?

Paulo Pereira - Faz sentido Portugal continuar a dedicar o nível de investimento atual, de forma sustentável e previsível, para garantir a continuidade do trabalho realizado nesta região pela comunidade científica nacional. Por outro lado, a comunidade polar nacional tem conseguido capitalizar o financiamento anual proporcionado pela FCT, com grande retorno para a qualidade e visibilidade da ciência portuguesa e a internacionalização das equipas de investigação. O grande ganho nacional da investigação científica realizada nesta região advém do facto dos cientistas realizarem atividades num "laboratório vivo", onde os processos científicos decorrem in situ mas com grande impacto a nível global. Por exemplo, alguns dos estudos realizados na Antártida têm impacto significativo na investigação sobre as alterações climáticas que se repercutem em todo o planeta. O investimento nesta região tem, por isso, um retorno importante para a investigação e o desenvolvimento tecnológico nacional, ainda que Portugal esteja distante da Antártida.

Em que montante a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) financia anualmente o Programa Polar Português?

P. P. Atualmente a FCT financia o PROPOLAR no montante de € 250.000/ano, para apoio às Campanhas Polares Portuguesas, que abrangem ambas as regiões polares - Ártico e Antártida. No entanto, a maior fatia do financiamento é destinada às atividades de investigação científica realizadas na Antártida, particularmente devido ao montante que é canalizado para o fretamento do voo, que realiza o transporte de investigadores entre Punta Arenas, no Chile, e a Península Antártica.

Considera que o montante é suficiente? Há margem para que esse financiamento aumente?

P. P. - O financiamento foi recentemente aumentado, no início de 2015, para efetivamente garantir a sustentabilidade das Campanhas Polares. Assim, considero que o montante de financiamento atualmente atribuído é suficiente, para a capacidade científica atualmente instalada, não se prevendo - a breve prazo - novo aumento desta linha de financiamento.

Portugal é membro não consultivo do Tratado da Antártida, ou seja, não tem voz ativa nas decisões que são tomadas sobre o presente e o futuro da região. Considera que seria importante que o País passasse a membro consultivo? Há negociações nesse sentido?

P. P. - A participação Portuguesa nas Reuniões Consultivas do Tratado para a Antártida (ATCM) tem sido a principal forma de cooperar no âmbito do Tratado, apesar do estatuto de país não consultivo, desde a adesão portuguesa a este instrumento em janeiro de 2010. A regularidade na participação portuguesa nestas reuniões (Portugal participa consecutivamente desde 2013 nas ATCM) foi mais um importante passo para apoiar as atividades de investigação na Antártida, pois a presença portuguesa nesta região tem de cumprir escrupulosamente as regras do Tratado para a Antártida e do seu Protocolo de Proteção Ambiental, o qual Portugal ratificou em outubro de 2014.

Apesar de Portugal não ter direito de voto nestas reuniões, o país pode contribuir para as questões que são discutidas e é muito importante poder aceder ao conteúdo das discussões e às decisões tomadas, pois estas têm influência nas atividades que Portugal realiza nesta região, por um lado e, por outro, algumas discussões podem também ser extrapoladas no que concerne à governação do espaço marítimo nacional, pois muito do que é discutido está ligado ao Direito do Mar e à "soberania" marítima (recursos marinhos e marítimos), dado o interesse geopolítico daquela região.

Quanto à possibilidade de Portugal se tornar membro consultivo do Tratado para a Antártida, tal tem sido discutido a nível nacional, mas considera-se que é ainda cedo para dar este passo, pois é muito importante consolidar primeiro as atividades científicas nacionais nesta região, bem como o nosso Programa Polar. Trata-se, no entanto de uma hipótese que deve ser considerada e discutida a médio prazo.

Esteve na Ilha do Rei Jorge este ano, com que impressão ficou sobre a investigação científica que diferentes países lá fazem e sobre os interesses geopolíticos que ali se jogam?

P. P. - Fiquei profundamente impressionado com a quantidade e a qualidade da investigação que se faz na Antártida em condições, muitas vezes, de clima extremo e com condições de operação muito difíceis. É, em larga medida, a dedicação e entusiasmo dos investigadores que permite a realização de muitas das atividades que aqui se desenvolvem. Há muitos temas diversos que são estudados nesta região e muita da investigação que aqui se faz é de caracter interdisciplinar com aplicações e impacto também em áreas científicas muito diversas.

No que se refere aos interesses geopolíticos, fiquei com a impressão que eles, naturalmente existem, mas que acabam por criar oportunidades interessantes para os investigadores que têm maior facilidade em alojar-se ou transportar-se entre as bases dos diferentes países. A este nível, e num território tão remoto e frequentemente inóspito, é extraordinário como a ciência aproxima os diferentes países e como militares, investigadores e outro pessoal trabalham lado a lado para assegurar o cumprimento dos objetivos científicos dos projetos que se realizam na Antártida.

Como vê o futuro da Antártida, na década de 2040, após revisão do Tratado?

P. P. - Pelas discussões que são realizadas em sede das reuniões dos membros consultivos do Tratado da Antártida e pela perspetiva como as atividades dos diferentes países são conduzidas nesta região, quero creditar que o futuro da Antártida passa por manter o mesmo estatuto - continuar a ser uma região utilizada "exclusivamente para fins pacíficos", como refere o seu Tratado. No que a Portugal respeita, devemos continuar a interessar-nos por esta região para a realização de investigação científica de elevada qualidade, com vista à resolução dos problemas globais (essencialmente ambientais), com o menor impacto possível. No entanto, tenho presente os interesses geopolíticos em causa, o futuro da Antártida está também muito dependente da continuidade da harmonia internacional.

Carla Castelo
SIC

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