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Novos casos de ébola resultam de transmissão sexual e podem reacender epidemia

O aparecimento de novos casos de Ébola deve-se a transmissão sexual porque alguns sobreviventes mantêm o vírus no sémen durante meses, lembrou hoje um especialista, alertando que estes casos podem reacender a epidemia.

© Glenn Duda / Reuters

"Isto é complicado porque a partir do momento em que há uma pessoa que deflagra a doença, pode recomeçar a transmissão por meios clássicos", nomeadamente o contacto direto entre pessoas ou com excreções, disse à Lusa o infeciologista Jaime Nina, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical.

Numa entrevista telefónica à Lusa no dia em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou o surgimento de dois novos casos confirmados de Ébola na Guiné-Conacri, o especialista admitiu tratar-se de transmissão por via sexual.

O meio de transmissão em 99% dos casos de Ébola é por contacto direto entre pessoas ou com excreções, sangue, fezes diarreicas ou vómitos.

No entanto, descobriu-se em 2015 que "alguns homens ficam com o vírus naquilo que é chamado um santuário - o trato genital masculino", explicou o especialista.

Embora não esteja ainda completamente definida qual a estrutura anatómica que alberga o vírus durante longos períodos - no caso mais extremo foi detetado 199 dias após os primeiros sintomas - certo é que esses homens podem transmitir a doença por via sexual.

"Os casos [de Ébola] que tem havido [desde o fim da epidemia] têm sido exaustivamente estudados e todos eles se enquadram em transmissão por via sexual, meses após um sobrevivente ter tido alta", disse o especialista.

"Quanto tempo isto vai durar, ninguém sabe", afirmou.

O perigo é que um novo caso da doença pode reacender a epidemia, admitiu Jaime Nina, sublinhando no entanto que os países onde têm surgido os novos casos, os mais afetados pelo Ébola, são aqueles que estão mais alerta para o risco de reacendimentos.

"Se há alguém que tem experiência de diagnosticar e tratar Ébola neste momento são eles, portanto neste momento é difícil um caso suspeito passar despercebido", afirmou.

Mais grave é se um sobrevivente que tenha o vírus viajar para um país diferente e aí infetar alguém, apanhando "completamente de surpresa" outro país.

Jaime Nina exemplificou com o caso de um médico norte-americano que foi infetado na África Ocidental e sobreviveu.

"Meses depois, 'just in case', fez uma análise ao esperma e tinha vírus viáveis", afirmou.

Embora o Ébola seja conhecido desde 1976, só em 2015 se descobriu que alguns homens mantêm o vírus ativo no sémen, podendo transmitir a doença meses depois de se terem curado.

"Isto nunca se tinha detetado antes porque os surtos eram pequenos e como se trata de um meio de transmissão raro, nenhum surto foi suficientemente longo para se detetar", explicou Jaime Nina.

A epidemia de Ébola na África Ocidental, a pior de que há memória, afetou 28.637 pessoas e matou 11.315 delas.

Iniciada em dezembro de 2013 na Guiné-Conacri, a epidemia propagou-se depois aos vizinhos Libéria e Serra Leoa, três países que concentraram 99% dos casos, bem como à Nigéria e Mali.

A Serra Leoa foi inicialmente considerada livre da transmissão de Ébola a 07 de novembro, a Guiné-Conacri a 29 de dezembro e a Libéria a 14 de janeiro.

No entanto, desde então já foram detetados novos casos na Serra Leoa e hoje a OMS confirmou dois novos casos na Guiné-Conacri.

A OMS avisa que os três países mais afetados pela epidemia de Ébola ainda estão em risco de novos focos, sobretudo devido à persistência do vírus em alguns sobreviventes, pelo que devem manter uma vigilância forte e uma capacidade de resposta de emergência.

Lusa

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