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"Nenhum lugar é seguro e Lisboa é uma capital europeia", alerta jornalista britânico

O jornalista britânico Andrew Hosken admite que Lisboa pode ser alvo de um atentado perpetrado pelo grupo terrorista Daesh (autodenominado Estado Islâmico) porque o terror "voltará a acontecer em algum sítio, em breve".

O livro do jornalista britânico Andrew Hosken lançado hoje em Lisboa.

O livro do jornalista britânico Andrew Hosken lançado hoje em Lisboa.

"Nenhum lugar é seguro e Lisboa é uma capital europeia. Talvez o risco seja menor do que em Londres, mas quem pode ter a certeza? Não seria condescendente em relação à ameaça a Portugal", afirmou à Lusa, em Lisboa, o autor do livro "Império do Medo - No interior do Estado Islâmico", hoje nas livrarias.

Para o jornalista da BBC que relatou os ataques de 11 de setembro de 2001 a partir de Nova Iorque, e cobriu os atentados de 07 de julho de 2005 em Londres, o terror do EI não conhece distâncias, "está preparado para fazer qualquer coisa e, por isso, é perigoso".

"É uma pena visarem-se os migrantes que fogem para a Europa", apontando-os como meio para a entrada de terroristas no espaço europeu, disse, a propósito da polémica que atinge a Europa à volta da chamada "crise dos refugiados".

"A maioria dos atacantes em Paris e Bruxelas já estava nas cidades e tinha a nacionalidade destes países", sublinhou, lembrando que o mesmo já tinha acontecido em Londres, em 2005, em que os terroristas suicidas tinham nacionalidade britânica.

"Na realidade, os migrantes são vítimas do terror do Daesh. Os terroristas não precisam dos migrantes para chegar até à Europa, à qual acedem facilmente. Entram e saem da Síria, através da Turquia, com facilidade. São muito bons a atravessar fronteiras, têm meios e pessoas na Europa às quais podem chegar", disse.

Hosken esclareceu que durante a investigação desenvolvida para este livro chegou à conclusão de que o Daesh já existe há quase 20 anos.

"Atualmente, o Daesh é responsável por grandes zonas da Síria, Iraque, Líbia, em partes do Sinai (Egito) e Afeganistão, mas não precisa de território para sobreviver. Já era ativo antes de ter um califado. Não apareceu do nada há dois anos", apontou.

Para este jornalista, a organização terrorista apenas tem mudado de nome ao longo desse tempo, numa referência ao início do Daesh, em 1999, como um campo de treino para jihadistas no Afeganistão chamado Twahid wa Jihad (Unicidade e Guerra Santa).

Há muito que este problema se arrasta e vai continuar por muitos anos no futuro, considerou, explicando que o Ocidente está em "guerra com o Daesh, ou formas do Daesh, há pelo menos 12 anos".

Para o autor, mesmo que o Daesh fosse derrotado militarmente, continuaria a existir como organização terrorista com um único objetivo: A conquista do mundo e a imposição da sharia'(lei islâmica), um regresso a uma forma mais pura do Islão.

"Mas, continuou, há outros fatores: a corrupção no Iraque e no Médio Oriente, que ajudou o Daesh a conseguir dinheiro e a atrair pessoas para integrar as suas fileiras, a divisão entre sunitas e xiitas, a natureza repressiva dos regimes vigentes no Médio Oriente. Não é um mistério, perante isto, perceber porque homens pobres e ignorantes da Tunísia e Marrocos, ou outros locais, decidiram ir para a Síria ou Iraque atraídos pela mensagem do Daesh que oferece uma forma de liberdade e promete derrotar estes regimes".

E assegurou: "Todas estas questões ajudaram a criar o monstro que é o Daesh (...) a ideologia é esta e está presente, mas foram estes outros fatores que a tornaram tão tóxica e levaram as pessoas à organização".

Andrew Hosken afirmou que no livro quis explicar "o que se passa no Iraque e na Síria e como isso pode afetar o Ocidente (...) que esta é uma organização com uma história, objetivos e estratégias diferentes da Al-Qaeda".

Segundo o autor, há dez anos que a rede terrorista de Osama bin Laden discordava dos métodos e objetivos do Daesh, que é "basicamente uma amálgama de dois movimentos totalitaristas: jihadistas islâmicos, que querem conquistar o mundo, e rebeldes iraquianos, na maioria antigos membros do partido Baas de Saddam Hussein, que querem voltar a governar o Iraque".

O Daesh "é fundamentalmente uma organização iraquiana gerida por iraquianos", acentuou.

Ao contrário da Al-Qaeda, que tinha uma estratégia a longo prazo para a criação do califado, o Daesh "quer criar o caos agora, não quer esperar 100 ou dez anos, o que explica esta ferocidade obsessiva pela conquista da terra no Iraque, na Síria, na Líbia", concluiu Hosken.

Lusa

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