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Michel Temer, o político que saiu da posição de "vice decorativo"

O até agora vice-Presidente brasileiro, Michel Temer, de 74 anos, foi hoje promovido a chefe de Estado pelo Senado, depois do avanço do processo de impeachment (destituição) de Dilma Rousseff.

© Ueslei Marcelino / Reuters

O Senado aprovou a continuação do processo de destituição de Dilma Rousseff com 55 votos a favor e 22 contra.

Temer torna-se assim Presidente interino do Brasil numa reviravolta política desencadeada por uma das maiores crises económicas e institucionais do Brasil.

Considerado um homem formalista, um hábil articulador político de personalidade conciliadora, Temer mostrou o seu lado mais pragmático e ambicioso nos últimos meses ao assumir-se como uma alternativa para unificar um Brasil dividido politicamente.

Temer foi eleito vice-presidente pela segunda vez na 'chapa' liderada por Dilma Rousseff em 2014. Em menos de dois anos de Governo, porém, passou de aliado a rival político da chefe de Estado, agora afastada, após a publicação de críticas internas.

Insatisfeito com sua posição, Temer enviou uma carta a Dilma Rousseff, que foi distribuída acidentalmente para a imprensa, onde se autointitulava um "vice decorativo" que nunca teve poder para atuar, nem a confiança dos membros do Governo.

O conteúdo da carta espalhou-se rapidamente e, apesar das brincadeiras que gerou na internet, foi um passo decisivo para a rutura política que seria confirmada pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) com o Partido dos Trabalhadores (PT), no último mês de março.

A destruição desta aliança destruiu a base aliada dos partidos de centro que sustentavam o Governo do PT, que não conseguiu deter o andamento do processo de 'impeachment' contra Dilma Rousseff no Congresso.

Em poucos meses, Temer que antes se apresentava como um vice decorativo ganhou os holofotes, conquistou o apoio a maioria os membros do PMDB, políticos de outros partidos, empresários e parte da população que embora não o apoie diretamente, acredita que ele é uma alternativa melhor do que a gestão petista.

Filho de libaneses que emigraram para o Brasil na década de 1920, Temer foi criado na cidade de Tiete, interior do Estado de São Paulo. Terminou os estudos secundários na cidade de São Paulo, onde também se formou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Manifestou interesse político ainda na faculdade de direito, mas afastou-se dessa área durante o governo militar adotando uma postura neutra e dedicando seu tempo aos trabalhos de advogado, professor universitário e escritor.

Filiou-se no PMDB em 1981 e entrou efetivamente para a vida pública quando se tornou chefe da Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo, em 1983, assumindo posteriormente a Secretaria de Segurança Pública do Estado.

Disputou a primeira eleição em 1986, quando se candidatou ao cargo de deputado federal constituinte, ocupando a posição de suplente mas ocupando o lugar durante os trabalhos que aprovaram a Constituição do Brasil em 1988, em vigor até hoje.

A ascensão política foi evidente em 1994, quando foi escolhido para ser o líder do PMDB na Câmara dos Deputados (câmara baixa).

Apoiado pelo ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, tornou-se presidente da Câmara dos Deputados, cargo que ocupou três vezes.

Em 2001, foi eleito Presidente Nacional do PMDB, mantendo as funções até março deste ano.

Interessado em ver seu partido no poder, Temer levou o PMDB para a base de apoio do Governo petista no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2010 concorreu na 'chapa' governamental ao lado de Dilma Rousseff, tendo sido eleito vice-Presidente.

Na sua longa trajetória política teve seu nome envolvido em denúncias de corrupção.

Investigações feitas pela Polícia Federal em 2009 encontraram o seu nome citado em documentos da empreiteira Camargo Corrêa, como suposto favorecido de transferências irregulares.

Em 2014, a Operação Lava Jato, que investiga esquemas de corrupção na petrolífera Petrobras, descobriu novos documentos que também apontavam para Temer como beneficiário de transferências de dinheiro cuja origem ainda não foi esclarecida.

O político também foi citado em delações premiadas (contribuições à Justiça em troca de reduções de pena) de vários empreiteiros e do ex-senador Delcídio do Amaral.

Assim como Dilma Rousseff, também terá que enfrentar um processo de destituição, em andamento na Câmara dos Deputados que, no entanto, dificilmente deve ter sucesso.

No início de maio, Temer foi condenado pelo TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) que o considerou inelegível pelos próximos oito anos por ter feito contribuições para campanhas eleitorais de aliados acima do teto estabelecido pela lei.

Esta decisão, entretanto, não o impede de assumir a Presidência da República.

Chefe de Estado interino até ao julgamento final de Dilma Rousseff no Senado, podendo permanecer no cargo se ela for definitivamente afastada até 31 de dezembro de 2018, Temer precisa superar as acusações judiciais pendentes para depois tentar pacificar a política de um país mergulhado em crise económica.

Lusa

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