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Tragédia em Pedrógão Grande

Tragédia em Pedrógão Grande

Tragédia em Pedrógão Grande

Filha não consegue convencer pai a deixar casa

Uma rapariga, entre várias dezenas de pessoas que permaneciam, ao princípio da noite, no clube de Avelar, no concelho de Ansião, chorava e apenas dizia que ele, o pai, se recusava a abandonar a casa. "Ele não quer sair de lá", insistia, sem parar de chorar, a jovem, sem dizer mais nada e indiferente a quem a tentava apoiar.

"Está farta de ligar [por telemóvel] para o pai" e de dizer que ele se recusa a abandonar a sua residência, em Pedrógão Grande, ameaçada pelo fogo.


Se as chamas atacarem a habitação, ele prefere "morrer dentro de casa, a sair dela", contou à agência Lusa Paula Maria Soares, residente em Bairradas, no concelho de Figueiró dos Vinhos.


Paula Maria é uma das muitas pessoas que, pelas 21:00 de hoje, continuavam, junto às instalações do Atlético Clube Avelense (ACA), em Avelar, no concelho de Ansião (distrito de Leiria), à espera que o Itinerário Complementar 8 (IC8) ou qualquer outra estrada alternativa reabrisse ao trânsito, na zona da Sertã, para regressar a casa.


A rapariga, sempre a chorar ou a soluçar, mas quase em silêncio, voltou a falar ao telemóvel, desligou, falou com um rapaz e entraram ambos num carro -- "parece que vão ver se a estrada [de acesso a Pedrógão Grande] já está aberta para irem a casa", falar com o pai dela, comenta-se num pequeno grupo de pessoas.


"Isto é muito complicado", sustentava António Manuel, motorista, residente em Cernache do Bonjardim (Sertã), que também aguardava pela reabertura de uma das vias que dão acesso à sua terra, compreendendo o desespero da rapariga, mas também a atitude do pai.
Nas instalações do ACA continuavam, entretanto, a chegar alimentos e bebidas, oferecidas por gente anónima, instituições e empresas, designadamente duas cadeias de supermercados, para, entretanto, serem distribuídas pelos quartéis de bombeiros da região e "refugiados" dos incêndios.


O ACA transformou-se, ao princípio da noite de sábado, num autêntico centro de "refúgio mais ou menos seguro" de pessoas que, sobretudo oriundos do IC8, fugiam das chamas.


Umas ficaram no relvado, nuns colchões que, entretanto, dirigentes do ACA e voluntários foram buscar ao pavilhão desportivo da vila, outras pernoitaram na Escola Técnica e Profissional de Sicó, disse à agência Lusa Fernando Inácio Medeiros, presidente do clube de Avelar e diretor da Escola.


"Estávamos aqui no jantar de encerramento da época da equipa de veteranos do clube", quando começaram a chegar pessoas que fugiam dos incêndios e, sobretudo, que não podiam seguir viagem pelo IC8, recordou Inácio Medeiros, sublinhando que o "movimento de solidariedade" para com quem ali chegava, nasceu "espontaneamente" e provocou a imediata adesão de "gente e mais gente".


"Isto é um movimento de solidariedade dos avelenses", afirmava o presidente do Clube, sublinhando que todos os dirigentes do ACA "têm sido inexcedíveis" na sua entrega a esta causa e que ele é "apenas o porta-voz deste movimento".


O "movimento" gerado a partir do ACA serviu, hoje, cerca de duas centenas de pequenos-almoços e mais de duas centenas e meia de almoços e, no sábado e hoje, acolheu "milhares de pessoas" e recebeu e distribuiu "toneladas de alimentos e bebidas", que Inácio Medeiros ainda não consegue quantificar.


"Nada foi articulado", mas o empenho de todos os envolvidos neste "movimento que nasceu espontaneamente" está a responder ao seus objetivo, que é o de "tentar, de algum modo, atenuar um pouco o impacto desta tragédia", concluiu o presidente do ACA.

Lusa

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