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China está a viver uma "revolução sexual", diz a socióloga Li Yinhe

Mais de 70% dos chineses têm relações sexuais antes de casar, rompendo com a milenar "cultura de abstinência" que dominou a China até ao final da década de 1970.

HOW HWEE YOUNG

De acordo com um estudo de Li Yinhe, investigadora reformada da Academia Chinesa de Ciências Sociais, aquela percentagem subiu de 15% para 71% durante os últimos 25 anos.

"Isto é uma revolução sexual tranquila", afirma a socióloga. "As pessoas passaram a falar sobre sexo mais abertamente".

Li Yinhe, 63 anos, é considerada "a primeira sexóloga da China".

Num recente encontro com jornalistas estrangeiros, Li Yinhe situou o início da referida revolução em 1977, "o ano da revisão do Código Penal, que descriminalizou as relações extraconjugais". 

Uma mulher que mantivesse relações sexuais com vários homens podia ser condenada e presa, contou a socióloga. 

Na China antiga, "as pessoas eram muito positivas em relação ao sexo", mas desde a dinastia Song (960-1279) até à "Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76) predominou "uma cultura de abstinência sexual". 

O Partido Comunista Chinês (PCC), que tomou o poder em 1949, "era, em muitos aspetos, parecido com a igreja cristã" e "associava o sexo à burguesa e ao capitalismo", sustenta a socióloga.

"Para os comunistas, a prioridade era alimentar a população. A comida, em primeiro lugar. Um das primeiras medidas que tomaram foi fechar os bordéis", disse.

"É verdade que, para quem tem uma vida muito dura, o sexo é um luxo. Mas as pessoas, hoje, já têm a barriga cheia e o sexo passou a ser uma necessidade corrente", acrescentou.

O PCC, entretanto, renunciou ao "aprofundamento da luta de classes" e sem abdicar do seu "papel dirigente", adotou uma nova política, focada no desenvolvimento económico.

Em apenas três décadas, a pobre e isolada China tornou-se a segunda economia mundial, ultrapassando o Japão e a Alemanha. Mais de 650 milhões de chineses usam a internet, 80% dos quais através de smartphones e outros dispositivos móveis.  

"Muitas coisas mudaram", salienta Li Yinhe. "A comunidade 'gay' tornou-se mais visível e a sociedade chinesa tem-se mostrado bastante tolerante acerca da homossexualidade". 

A homossexualidade foi retirada da lista oficial de "perturbações mentais" em 2001, mas a socióloga considera que, neste domínio, continuam em vigor "leis absurdas e ultrapassadas".

Li Yinhe defende a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a "descriminalização da prostituição, da pornografia e do sexo em grupo".

"Além da Coreia do Norte, não conheço outro país que tenha uma lei como esta", disse a sexóloga acerca da proibição da pornografia.

Quanto à legalização da prostituição, argumentou que "todas as relações consentidas entre adultos devem deixar de ser punidas pela lei, quer haja ou não dinheiro envolvido".

"As amantes e concubinas dos ricos, que eles sustentam como símbolos do seu sucesso e poder, não são punidas", observou.

Nas décadas de 1960 e 1970, Li Yinhe estaria provavelmente detida num "campo de reeducação através do trabalho", acusada de promover "ideias decadentes" e "contrarrevolucionárias".

Em dezembro passado, a socióloga assumiu que tem há 17 anos uma relação amorosa com um transexual e vivem juntos com uma criança deficiente adotada.

"O meu companheiro nasceu mulher, mas identifica-se como homem e só consegue apaixonar-se por mulheres heterossexuais e não por mulheres homossexuais", escreveu Li Yinhe na sua conta no Sina Weibo, o "twitter chinês".

Foi uma "confissão" sem precedentes nos meios intelectuais chineses e, logo nas primeiras 24 horas, atraiu mais de 200.000 leitores.

"Toda a gente é, de alguma forma, única. Respeitar as escolhas das Li Yinhe que vivem entre nós é respeitarmo-nos a nos próprios", comentou na altura o Diário do Povo, órgão central do PCC.

Lusa
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