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Indígenas da Amazónia escrevem primeira enciclopédia de medicina tradicional xamânica

Indígenas do povo Matsés, que vivem na amazónia peruana, próximo à fronteira com o Brasil, reuniram material e escreveram a primeira enciclopédia de medicina tradicional xamânica, segundo a ONG norte-americana Acaté.

© Str Old / Reuters

A Enciclopédia de Medicina Tradicional Matsés, que tem mais de 500 páginas, foi escrita e editada por indígenas, na sua língua. Os verbetes estão organizados pelos nomes das doenças, e têm informações sobre a forma de reconhecê-las pelos seus sintomas, as suas causas e as plantas que podem ser usadas para combatê-las, com fotos, além de maneiras de preparar o medicamento e alternativas terapêuticas.

O livro foi escrito numa parceria entre anciãos, a maioria com mais de 60 anos, e indígenas mais novos, descreveu Christopher Herndon, presidente da ONG, na página de Internet da organização. Enquanto os mais velhos ficaram responsáveis por idealizar um capítulo da enciclopédia cada um, os mais jovens transcreveram os conhecimentos e fotografaram as plantas.

Na medicina xamânica tradicional, a floresta e os animais estão envolvidos na história das plantas e ligados aos motivos ou à cura das doenças. O conhecimento das técnicas de tratamento, portanto, é também produto de um aprofundamento espiritual e de laços com o mundo natural.

Segundo a Acaté, o conhecimento dos Matsés está preservado porque o seu contacto com culturas ocidentais ocorreu apenas nos últimos 50 anos, quando os atuais anciãos já eram adultos e possuíam o conhecimento tradicional passado pelos seus antepassados. A questão que está a ser trabalhada é a passagem desse conhecimento às novas gerações, que estavam menos interessadas no conhecimento ancestral.

Uma das preocupações dos indígenas em organizar a enciclopédia era o risco de biopirataria. De acordo com a ONG, foram tomadas medidas de segurança, como a produção do livro apenas na língua dos Matsés, sem traduções para inglês ou espanhol, a circulação do material somente nas comunidades do povo indígena e o cuidado de não ter sido escrito nenhum nome científico das plantas, nem adicionadas fotografias que as tornassem facilmente identificáveis.

A ideia para enciclopédia surgiu há três anos, num plano de ação feito pela Acaté e pelos Matsés para preservar e transmitir a cultura ancestral. Uma das principais metas estabelecidas foi a criação do livro.

Após dois anos de trabalho de pesquisa, os seis anciãos xamãs encontraram-se para finalizar a obra, em maio deste ano, na vila de Puerto Alegre, na Amazónia peruana. O encontro também contou com a presença do líder dos Matsés, dos chefes de 11 comunidades do povo indígena e de três representantes da Acaté, de acordo com a ONG.

Outra meta do plano de ação é a realização de um programa de aprendizagem, para que os mais velhos possam passar o seu conhecimento aos mais jovens, que irão acompanhá-los em incursões na floresta e no uso das plantas. Essa transmissão é importante para os Matsés, informa a Acaté, porque o seu sistema é baseado na experiência.

Lusa

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