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Manifestação pacífica junta angolanos no Canadá apesar do medo de represálias

Cerca de três dezenas de angolanos realizaram hoje um protesto pacífico junto ao Parlamento Provincial do Ontário, em Toronto, no Canadá, onde pediram a libertação dos ativistas detidos em Angola apesar do 'medo' de represálias sobre os seus familiares.

reuters

Fátima Borges, de 50 anos, porta-voz do grupo denominado 'Compatriotas Livres', que promoveu a iniciativa, mostrou-se "orgulhosa" com a adesão, embora reconheça que o fator 'medo' foi determinante para a adesão ao protesto não ser maior.

"Devido ao fator 'medo' não compareceram muito mais pessoas. Recebemos imensas mensagens de pessoas a dizerem que gostariam de ter comparecido, mas têm família em Angola e têm medo de represálias. Respeito esse sentimento. Estou satisfeita com o número de pessoas que comparecem", afirmou em declarações à agência Lusa.

No Canadá há três décadas, Fátima Borges disse ainda que "quase todos foram avisados" sobre eventuais represálias, mas defende que é necessário colocar os interesses próprios de lado. "Temos de pensar nos outros, naquelas pessoas cujas vidas estão em perigo, e temos de pensar conscientemente que as nossas ações podem influenciar de uma maneira positiva o desenrolar de eventos", justificou.

Fátima Borges prometeu continuar a luta até que seja alcançada a "liberdade dos jovens ativistas".

Quem também marcou presença no protesto pacífico foi Neto Fernandes, de 43 anos.

O angolano, que chegou ao Canadá há 15 anos proveniente de Luanda, frisou que estava ali por ser um "dever tendo em conta as atrocidades que têm acontecido em Angola", não acreditando no sistema judicial do seu país de origem.

"Estou aqui porque não acredito no sistema judicial de Angola, embora tenha respeito por ele, mas pela forma como foi feita a prisão dos jovens, os anúncios que foram feitos, ninguém pode acreditar que 15 elementos podem aplicar um golpe de estado", disse.

O emigrante salientou que Angola tem o exército "mais temido da África Austral" e lembrou que ao longo dos tempos, durante a 'guerra civil' angolana, as forças rebeldes tinham um exército com mais de 10 mil homens, armados com tanques, e mesmo assim não conseguiram concretizar um golpe de Estado. Assim, Neto Fernandes questiona: se os rebeldes não meteram medo ao presidente "são 15 jovens que o vão fazer?".

Neto Fernandes não tem dúvidas que tudo não passa de uma manobra política tendo em conta o "aproximar das eleições" em 2016.

"Tendo em conta a crise económica, o nível da corrupção e a insatisfação do povo, [o Governo] achou melhor afastar por algum tempo pessoas que, a seu ver, iriam criar-lhe uma má imagem. Mas foi infeliz ao deter aqueles jovens sem justa causa. Agora tem de ser pressionado e não podemos ficar parados. Tem de haver justiça. Além do mais, tudo o que aqueles jovens estavam fazer era para o nosso bem", sublinhou.

O angolano também confirmou que estava no protesto com algum 'medo', mas estava "firme" na luta que estava a ter, e aproveitou para pedir ao Governo liderado por José Eduardo dos Santos, que termine com a "repressão" sobre todos aqueles que têm ideias diferentes.

"A constituição diz que cada angolano tem direito à liberdade de expressão, de pensar diferente. Alguns tiverem medo de estar aqui no protesto, temem ser considerados anárquicos, inimigos do Governo e de serem presos. Temos de parar com isso e a única forma de o fazer é denunciar esses atos", disse.

Também Raquel Kirk, de 26 anos, participou no protesto. A canadiana, com mãe angola, espera que a sua voz "possa ser escutada mais alta do que outras", pois é o seu dever, para que seja "ouvida".

Falando em inglês, frisou ainda que esteve presente no evento para apoiar a comunidade angolana de Toronto, e que está convicta que a mensagem "será transmitida para Angola".

"Estamos a tentar sensibilizar as pessoas para os [ativistas] que foram detidos em Angola, apenas por causa das suas opiniões. Não é justo num país que se afirma livre, independente e democrático", conclui Raquel Kirk.

Na sexta-feira realizou-se uma vigília e hoje um protesto pacífico junto ao Queen's Park, como é conhecido o parlamento do Governo do Ontário, sendo ambas as iniciativas contra as alegadas violações dos direitos humanos nas detenções de ativistas angolanos por parte das autoridades do país.

Calcula-se que existam cerca três mil angolanos no Canadá, estando a grande maioria na província do Ontário.

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