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Um ano de poder do Syriza na Grécia sob o signo do terceiro resgate

Duas vitórias eleitorais em janeiro e setembro, confronto com as instituições europeias, referendo em torno das políticas de austeridade e um terceiro plano de resgate caracterizaram o primeiro ano no poder do Syriza na Grécia.

O líder do Syriza e agora primeiro-ministro, Alexis Tsipras, ambicionava protagonizar o fim da hegemonia neoliberal na Europa e o início de uma nova era política com origem no sul.

O líder do Syriza e agora primeiro-ministro, Alexis Tsipras, ambicionava protagonizar o fim da hegemonia neoliberal na Europa e o início de uma nova era política com origem no sul.

© Alkis Konstantinidis / Reuters (Arquivo)

A vitória deste partido da esquerda radical em 25 de janeiro de 2015 por maioria relativa (36,35%) -- situação inédita na Europa pós-Segunda Guerra Mundial -- e a formação de um Governo de coligação assente num programa anti-austeridade, tornou inevitável o início de uma guerra política e económica com as instituições europeias e os credores internacionais (União Europeia [UE], Banco Central Europeu [BCE], Fundo Monetário Internacional [FMI]), que se prolongou por cinco meses.

O Syriza herdava uma herança pesada, consequência da crise da dívida iniciada em 2008: 1,5 milhões de desempregados, 50% dos jovens sem trabalho, mais de 5.000 suicídios, destruição de um quarto da economia do país, dois resgates avaliados em 240 mil milhões de euros acompanhados por duras medidas de austeridade, contínua recessão económica.

O seu líder e agora primeiro-ministro, Alexis Tsipras, ambicionava protagonizar o fim da hegemonia neoliberal na Europa e o início de uma nova era política com origem no sul, no Mediterrâneo europeu. Prometia o regresso da soberania e a recuperação da dignidade, expressões de particular significado nesta região dos Balcãs.

Desde o início que BCE rejeitava com firmeza qualquer trajetória "unilateral". De imediato, suspendeu o regime de favorecimento concedido aos bancos gregos, com uma mensagem clara: era necessário negociar, pagar as dívidas nos prazos, e ceder.

Por fim, em 23 de fevereiro, Tsipras apresentou o seu plano de reformas em Bruxelas, prescindindo de diversas medidas "humanitárias" e comprometendo-se em prosseguir as negociações até junho.

Nesse período crucial, instalou-se em definitivo a perceção de que não seriam positivos demasiados sucessos do Syriza para evitar o "efeito de dominó" em Portugal ou Espanha, também sob intervenção externa.

O Governo grego, que subestimou a força da elite europeia, também revelou apatia e prolongada expetativa no decurso das negociações com os credores e evitou aplicar no imediato medidas para contrariar a corrida aos bancos e a fuga de capitais.

Um erro que será admitido por Atenas, mesmo que Tsipras tenha prescindido de um "plano B" destinado a preparar o país para o 'Grexit', a eventual saída da zona euro.

O ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, em guerra aberta com os credores, perde protagonismo, enquanto a 'troika' insistia no programa de austeridade. Em pleno impasse, Tsipras surpreendeu com o anúncio da realização de um referendo em 5 de julho sobre a última proposta dos credores, que Atenas considerou "humilhante".

Em paralelo, Atenas anunciava não ter condições de pagar a parcela do empréstimo ao FMI avaliada em 1,5 mil milhões de euros, o primeiro incumprimento do género registado num país desenvolvido.

Bruxelas respondeu com o congelamento da liquidez para o sistema bancário grego, forçando o Governo a impor o controlo de capitais e restrições nos levantamentos. Os credores, em particular a Alemanha pela voz do seu ministro das Finanças Wolfgang Schauble, reafirmavam que "escolhas erradas" implicariam um 'Grexit' forçado e o fim dos depósitos dos bancos gregos.

Mas apesar dos apelos ao "voto certo", ou do encerramento dos bancos, 62% dos gregos pronunciaram-se no referendo pelo "Não" ao plano proposto. Euclid Tsakalotos, responsável pelas negociações políticas, substitui Varoufakis nas Finanças e em 13 de julho era anunciado um acordo entre Atenas e os credores, que implicava um terceiro memorando de 86 mil milhões de euros em cinco anos, e novas medidas de austeridade.

A rebelião de parte considerável da bancada parlamentar do Syriza, e da ala esquerda anunciou a formação de um novo partido, a Unidade Popular (LEA), que defende uma "saída ordenada" do euro. Com um partido em mutação, Tsipras volta a optar por uma nova jogada arriscada e convoca legislativas antecipadas para 20 de setembro.

Pela terceira vez em 2015, volta a vencer um escrutínio (35,5%) e repete o governo de coligação com a direita soberanista dos Gregos Independentes (Anel).

Um ano após ter subido ao poder, o Syriza e Alexis Tsipras foram forçados a alterar o seu discurso, e a sua prática. No confronto com as instituições europeias, prescindiram de objetivos programáticos, e as manifestações e greves regressaram ao país.

Em contrapartida, o novo poder reivindica alguns sucessos, como as negociações em torno da recapitalização da banca, medidas no combate à evasão fiscal e corrupção, apoio social às camadas mais fragilizadas da população, perspetiva de renegociação da dívida.

Apesar de enfraquecido, o Syriza pretende continuar a afirmar-se como um catalisador, um elemento decisivo para uma nova abordagem em termos de prioridades nas políticas económicas e sociais.

A "união das forças progressistas" para mudar o rumo da Europa permanece o lema de Tsipras, para quem as reformas e medidas concretizadas pelos seus dois governos -- nova lei da nacionalidade, casamentos homossexuais, medidas sociais, abordagem à crise dos refugiados -- têm a marca da "justiça social".

O líder do Syriza acredita que a maioria de três deputados que possui é suficiente para continuar a governar até 2019, aposta numa ampla reforma da Segurança Social, prevê o regresso ao crescimento. A prioridade consiste assim em concluir "rapidamente" com o "quarteto" de credores -- UE, BCE, FMI e Mecanismo Europeu de Estabilidade - a primeira avaliação do terceiro programa, e iniciar o debate sobre um possível alívio da dívida helénica.

No seu ano dois, o Syriza continuará a ser confrontado com estes desafios, e alguns reveses políticos. Em meados de janeiro, o Governo grego foi forçado a aceitar o FMI no terceiro plano de resgate. E, pela primeira vez no último ano, duas sondagens recentes colocaram a Nova Democracia (ND, direita) à frente nas intenções de voto.

Lusa

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