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Não tem um neurónio e já é excelente aluno

Não tem um único neurónio mas é capaz de aprender: um organismo vivo constituído por uma única célula mostrou que consegue tirar lições de experiências para se alimentar sem riscos.

"É a primeira vez que vemos um organismo unicelular capaz de aprender", declarou à agência France Press Romain Boisseau, investigador em Biologia e coautor de um estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B.

"Tal vem provar que a aprendizagem não precisa necessariamente de um sistema nervoso", acrescentou Audrey Dussutour, investigadora no Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS).

O herói deste estudo é Physarum polycephalum. Vive nos bosques das regiões temperadas, parece um cogumelo amarelo. Mas não é um cogumelo. É um bolor gelatinoso.

Primo afastado das plantas, dos cogumelos e dos animais, apareceu na Terra cerca de 500 milhões de anos antes do Homem. É constituído por uma única célula, tem milhões de núcleos e pode cobrir superfícies de vários metros quadrados com as suas extensões - pseudópodes [prolongamento protoplasmático de certas células, utilizado para a locomoção]. É capaz de se deslocar a uma velocidade de 5 centímetros por hora para encontrar alimento.

Os investigadores chamam-lhe "o blob" dado que não tem forma definida como a massa alienígena do filme norte-americano de 1958 que devora tudo à sua passagem, incluindo seres humanos. Este último alimento não faz parte da dieta de Physarum polycephalum, que prefere bactérias e cogumelos.

Mas também gosta muito de aveia. E é aqui que começa a experiência.

Durante nove dias, os cientistas confrontaram vários grupos de Physarum polycephalum com substâncias amargas mas inofensivas que eles deviam atravessar para chegar ao seu alimento - flocos de aveia.

Um dos grupos tinha de atravessar quinino, outro cafeína, só o percurso do terceiro grupo, o de controlo, não tinha qualquer substância. Ao início, os Physarum polycephalum estavam reticentes em atravessar o quinino e a cafeína. Desconfiados, avançaram apenas com uma fina extensão, para limitar o contacto com as substâncias, que julgaram perigosas. Demoraram várias horas até alcançar o alimento.

Ao fim de uns dias, perceberam que as substâncias eram inofensivas e atravessavam-nas cada vez mais rapidamente. Ao final de seis dias o percurso foi feito da mesma forma que o grupo de controlo já fazia porque não tinha de passar por nenhuma substância.

Os cientistas chamam a este fenómeno "habituação". "Trata-se de um processo de aprendizagem simples que consiste em habituar-se a um estímulo que aparece várias vezes", explicou Audrey Dussutou. Se alguém nos sopra nos olhos, fechamo-los. Mas se o fizerem várias vezes, acabamos por não fechar os olhos porque percebemos que não representa perigo.

Toda a "habituação" é seguida de esquecimento caso o estímulo não seja repetido durante algum tempo. Assim, dois dias depois sem contacto com alguma das substâncias amargas, os Physarum polycephalum voltaram a desconfiar do quinino e da cafeína.

Esta forma de aprendizagem - bastante comum entre os animais - ainda não tinha sido observada num organismo unicelular. Esta descoberta vem assim colocar a questão sobre a capacidade de aprendizagem de seres extremamente simples.

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