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Dhlakama exige comissão para investigar violações de direitos humanos em Moçambique

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, exige uma comissão composta por deputados e sociedade civil para investigar abusos de direitos humanos em Moçambique e alegadas mortes e desaparecimentos de membros e simpatizantes do seu partido.

Corpos encontrados em vala comum na Gorongosa, Moçambique

Corpos encontrados em vala comum na Gorongosa, Moçambique

LUSA

Em entrevista por telefone concedida ao canal televisivo privado STV e hoje reproduzida no diário O País, pertencente ao mesmo grupo, o presidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) declina que os 15 corpos descobertos ao abandono nas matas do centro do país tenham sido responsabilidade do maior partido de oposição.

"Isso é brincadeira", reagiu Dhlakama, referindo que as populações da zona onde os corpos foram descobertos, entre os distritos da Gorongosa e Macossa, relatam movimentações de carros de uma força especial da polícia a descarregar cadáveres e a existência de "esquadrões da morte" a atuar na região.

Na entrevista, em que Dhlakama anunciou que vai indicar os nomes dos negociadores da Renamo para retomar o diálogo com o Governo, o líder da oposição declara que uma grande quantidade de membros e simpatizantes do seu partido foi morta ou está desaparecida.

Referindo "centenas de nomes não só da Renamo como de pessoas simpatizantes" perderam a vida ou foram raptadas, o presidente da Renamo disse que o secretário-geral do seu partido, Manuel Bissopo, está a reunir uma lista, que inclui delegados distritais de Manica, Nhamatanda, Caia, Sussundenga e Espungabera, no centro do país.

"É preciso que a Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique, partido maioritário] aceite a criação de uma comissão de inquérito não apenas composta por deputados da Assembleia da República, mas também por membros da sociedade civil e os próprios jornalistas para levarmos uma investigação a sério", afirmou Dhlakama, apontando um caso em que alegadamente 50 jovens de Vila Paiva, na região da Gorongosa, foram mortos sob a acusação de alimentarem militares da Renamo.

O presidente da Renamo insiste que mantém o seu propósito de governar nas seis províncias onde reivindica vitória nas eleições gerais de 2014, que considera fraudulentas, anunciando que vai propor uma nova emenda constitucional para acomodar essa pretensão.

Afonso Dhlakama diz que permanece na sua casa na Gorongosa desde o final do ano passado, descrevendo que caminhou mais de 200 quilómetros no final do ano passado para o local onde se encontra e que, na altura, contraiu malária, mas que agora está "bem de saúde" e conta abandonar as matas em breve.

O líder da oposição referiu-se ainda à revelação de empréstimos garantidos pelo Estado e que fizeram disparar a dívida pública, mencionando que não é a Frelimo que está a ser punida, mas o povo de Moçambique.

"São as pessoas que vão ficar sem medicamentos, os professores sem medicamentos e seria bom que as pessoas fossem responsabilizadas", observa Dhlakama, que diz duvidar que o ex-Presidente Armando Guebuza "tenha recebido sozinho milhões e milhões" e sugerindo que o dinheiro tenha sido usado na campanha eleitoral da Frelimo.

As negociações entre o Governo moçambicano e a Renamo estão paralisadas há vários meses, depois de a Renamo se ter retirado do processo, alegando falta de progressos e de seriedade por parte do executivo.

Nos últimos meses, Moçambique tem conhecido um agravamento da violência política, com relatos de confrontos entre a Renamo e as forças de defesa e segurança, além de acusações mútuas de raptos e assassínios de militantes dos dois lados e ainda ataques atribuídos pelas autoridades ao braço militar da oposição a alvos civis no centro do país.

No final de abril, 15 corpos largados ao abandono nas matas foram descobertos por jornalistas, no centro do país.

Os cadáveres, entretanto sepultados sem que tenham sido identificados, estavam próximos de um local onde camponeses dizem ter visto uma vala comum com mais de cem corpos, mas sem confirmação ainda por outras testemunhas numa região de conflito e com forte presença de militares.

Lusa