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Paquistão repudia sugestão islâmica de que deve ser permitido "bater ligeiramente" nas mulheres

Media e ativistas paquistaneses repudiaram hoje a sugestão de uma instituição religiosa islâmica de que deve ser permitido aos homens "bater ligeiramente" nas suas mulheres, feita numa proposta de lei de proteção das mulheres.

© Fayaz Aziz / Reuters

O Conselho da Ideologia Islâmica (CII) divulgou na quinta-feira a proposta de lei, que apresenta como a resposta da instituição ao que considera os avanços demasiado progressivos de nova legislação paquistanesa, que dá às mulheres mais direitos e proteção na província do Punjab.

A comunicação social local fez eco da proposta, que sustenta, por exemplo, de acordo com a agência France Presse, que "um marido pode ser autorizado a bater ligeiramente na sua mulher se esta desafiar as suas ordens, recusar vestir-se de acordo com os seus desejos, recusar pedidos de relações sexuais sem qualquer justificação religiosa ou não tomar banho depois das relações ou dos períodos menstruais".

A proposta foi hoje alvo de uma onda de repúdio e foi ridicularizada nos media e nas redes sociais.

O maior e mais influente jornal paquistanês, o diário Dawn, em língua inglesa, publicou um artigo satírico com uma lista de coisas em que os maridos podiam bater para além das respetivas mulheres, como ovos ou o fundo dos frascos de ketchup.

O artigo é um exemplo raro de ridicularização levada a cabo por um órgão de comunicação social paquistanês contra aqueles que no país ultraconservador reclamam falar em nome da religião.

A proposta de lei foi também repudiada pela Comissão dos Direitos Humanos do Paquistão (HRCP), que condenou as suas recomendações, considerando-as "ridículas", e apelou à dissolução da instituição.

"É difícil perceber como alguém no seu perfeito juízo pode pensar que é preciso ainda mais encorajamento ou justificação que convidem à violência sobre as mulheres no Paquistão", afirmou o HRCP.

Nas redes sociais, as críticas e anedotas atingiram outros níveis de virulência.

"Este organismo deveria ser dissolvido, de preferência em ácido", escreveu um assinante do Twitter, citado pela AFP.

Há várias décadas que as mulheres lutam pelos seus direitos no Paquistão, um país em que as mortes de honra e os ataques com ácido permanecem lugares-comuns, e em fevereiro último viram reconhecidos em lei alguns dos direitos e proteção.

A nova Lei de Proteção das Mulheres contra a Violência redefine "violência" contra as mulheres como "quaisquer ofensas cometidas contra as mulheres", incluindo os abusos domésticos ou emocionais, assédio ou cibercrimes.

A lei proporciona ainda uma linha verde e cria centros de proteção e abrigos para as mulheres em várias cidades, assim como desenha programas de proteção, que incluem o fornecimento de detetores de movimentos por GPS às mulheres sob proteção destes programas.

O CII, formado em 1962 para aconselhar o parlamento paquistanês sobre a compatibilidade das leis civis com a 'sharia' (lei islâmica), insurgiu-se contra esta legislação e produziu um conjunto de sugestões, não vinculativas.


Lusa

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