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Guterres quer tropas ocidentais em missões de paz da ONU

O candidato a secretário-geral das Nações Unidas António Guterres defendeu hoje num debate em Londres a participação de tropas de países ocidentais em missões de paz da ONU em vez de contribuírem apenas financeiramente.

© Pierre Albouy / Reuters

O português quer "criar uma nova relação dinâmica entre os doadores de tropas e os doadores financeiros" e uma presença de mais tropas no terreno dos "chamados países ocidentais".

Confrontado com os eventuais problemas que seriam soldados de um país integrarem uma missão numa antiga colónia, Guterres referiu o exemplo da Serra Leoa, onde estiveram tropas britânicas que ajudaram no processo de transição democrática que considerou exemplar.

"Não é justo que uns façam as missões de paz e os outros paguem. É importante que todos estejam envolvidos na manutenção de paz", vincou, aludindo que os países mais ricos têm mais recursos militares.

A este propósito, o antigo primeiro-ministro português apontou a missão de paz na Somália, composta por tropas de vários países africanos e que se deparavam com a falta de equipamento como helicópteros.

"O equipamento deles lembrava-me as forças armadas portuguesas há 30 anos atrás", gracejou Guterres, que apelou a comunidade internacional precisa de apoiar mais as missões de paz.

Mais e melhores meios humanos e materiais, enfatizou, poderão ser essenciais para as missões de paz conseguirem "fazer respeitar os direitos da população que é suposto protegerem".

Mostrou-se também determinado, se for escolhido para secretário-geral da ONU, a acabar com situações em que os guardiões da paz se tornam em violadores dos direitos humanos.

"A pior coisa para mim enquanto funcionário da ONU durante dez anos foi ter conhecimento de situações de direitos humanos não por exércitos ou milícias, mas por guardiões da paz", lamentou.

Guterres falava num debate público intitulado "O próximo secretário-geral da ONU: conheça os candidatos", organizado pelo diário The Guardian em parceria com as organizações United Nations Association-UK (UNA-UK) e Future United Nations Development System.

Além do antigo Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), participaram os candidatos Vuk Jeremi, antigo presidente da Assembleia Geral da ONU e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Sérvia, e Igor Luki, vice primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros e da Integração Europeia de Montenegro.

Discutiram temas como as alterações climáticas, a ameaça do terrorismo ou a falta de confiança da sociedade nas instituições, incluindo na ONU.

Sobre o tema da falta de igualdade de género, todos invocaram interesse em promover mais mulheres a cargos de responsabilidade na organização.

O antigo líder do Partido Socialista lembrou o seu papel precursor na introdução de quotas para mulheres nos órgãos partidários no início da década de 1990, invulgar, lembrou, para um país da Europa do Sul.

"Não tenho dúvida em assumir que sou feminista", garantiu Guterres.

Este foi o segundo de três debates [o primeiro foi em Nova Iorque a 13 de abril] organizados pelo Guardian com a UNA-UK, cuja diretora, Natalie Samarasinghe, saudou pela importância de envolver a sociedade civil no processo.

"Até agora este tipo de eventos era inimaginável. A seleção do secretário-geral da ONU era envolta em segredo e muitas vezes nem se conhecia o nome dos candidatos. Até a eleição do papa era mais transparente", notou, ao abrir o evento.

Esta é a primeira vez que a ONU vai realizar a seleção do secretário-geral com candidaturas públicas, que vão ser avaliadas pela sociedade civil, como organizações não-governamentais.

A diretora-geral da Unesco, a búlgara Irina Bokova, o ex-presidente esloveno, Danilo Turk, a ex-vice-presidente e ex-ministra dos Negócios Estrangeiros da Croácia, Vesna Pusic, e a ex-ministra da Moldávia Natalia Guerman, o macedónio Srgjan Kerim, que presidiu à Assembleia geral da ONU entre 2007 e 2008, e a ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, são outros dos candidatos a suceder a Ban Ki-moon.

Lusa

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