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Muçulmanos celebram início do Ramadão, muitos em zonas de guerra

Mais de mil milhões de muçulmanos cumpriram hoje o início do Ramadão, mas nas cidades sitiadas da Síria e do Iraque, os residentes têm dificuldades para assinalar o mês sagrado.

© Beawiharta Beawiharta / Reute

As autoridades islâmicas anunciaram o início do mês de jejum com o avistamento do quarto crescente da lua em países como a Indonésia e a Arábia Saudita.

Para assinalar a revelação divina recebida pelo Profeta Maomé, os muçulmanos abstêm-se este mês de comer, beber, fumar e ter sexo da aurora ao pôr-do-sol.

Quebram o jejum com uma refeição conhecida como 'iftar' e antes de amanhecer têm uma segunda oportunidade para comer e beber durante o 'suhur'. Ao mês de jejum segue-se o festival de Eid al-Fitr.

Mas, para muitos, na Síria, habituados a privações, após cinco anos de guerra, o Ramadão deste ano afigura-se especialmente difícil, sobretudo em cidades e vilas sitiadas.

Em Madaya, onde cerca de 40.000 pessoas vivem há meses cercadas por forças do regime, a residente Mumina, de 32 anos, e o marido estão a planear quebrar o jejum com a ajuda alimentar fornecida pela ONU.

"As encomendas contêm latas de leguminosas e de atum, mas não têm massa, carne, laticínios. Tentámos plantar alguns vegetais, mas a terra não está boa para plantar agora", explicou.

"Praticamente não há comida nos mercados e o que encontramos é tão caro que não podemos comprar", comentou, acrescentando que está a planear uma simples refeição de feijões para hoje à noite.

Shadi Matar, ativista de Daraya, também se queixou de que os habitantes só têm vegetais para se alimentar no 'iftar'.

"Temos, decididamente, muitas opções: há salsa, rabanetes, coentros, rúcula, espinafres e às vezes até conseguimos encontrar courgettes. Há pessoas que nem sequer têm estas opções", declarou, tentando mostrar-se positivo em relação à situação.

Cerca de 8.000 pessoas vivem em Daraya, que recebeu a 01 de junho o seu primeiro carregamento de ajuda humanitária desde o início do cerco do regime, em 2012, mas a instituição de solidariedade britânica Save the Children disse que o carregamento não inclui alimentos.

Na cidade iraquiana de Fallujah, o pai de seis crianças Abu Mohammed al-Dulaimi também está preocupado sem saber como arranjar comida para a família durante o Ramadão.

As forças iraquianas apertaram o cerco à volta de Fallujah enquanto prosseguem uma forte ofensiva para retomar a cidade ao grupo 'jihadista' Estado Islâmico (EI).

Crê-se que cerca de 50.000 pessoas estão encurraladas lá dentro, algumas sendo usadas como escudos humanos pelo EI, e as famílias deixadas para trás são muitas vezes aquelas que não conseguiram fugir.

"Temos de nos levantar às 05:00 e estar interminavelmente numa bicha para pagar 5.000 dinares (3,95 euros) por um quilo de tomate", disse Dulaimi, contactado pela agência de notícias francesa AFP no interior de Fallujah.

"Nem sequer posso lá ir eu, tenho de mandar alguém, porque é preciso ter uma longa barba e uma 'dishdasha' curta", comentou, descrevendo a aparência dos 'jihadistas'.

Na Líbia, atingida pelo conflito, os habitantes falaram de um estado de espírito sombrio e queixaram-se do elevado preço da comida.

"Há cortes de eletricidade e falta de dinheiro", disse o bancário Karima Munir.

Em algumas partes do mundo, os muçulmanos prepararam-se para celebrar o Ramadão com extravagância, incluindo nas ricas monarquias do Golfo.

No Dubai, por exemplo, o hotel Burj al-Arab, em forma de vela de barco, divulgou que terá para os clientes, no 'iftar', "uma variedade de deliciosas iguarias tradicionais" por 400 dirhams dos Emirados (cerca de 100 euros) por pessoa.

Na Indonésia, os fiéis passaram os dias anteriores ao Ramadão participando em rituais, incluindo visitas às sepulturas de familiares e mergulhos em nascentes decoradas com flores.

Entretanto, os radicais do grupo Frente dos Defensores Islâmicos (FPI) ameaçaram invadir casas noturnas indonésias que violem as restrições durante o Ramadão.

"Por favor, respeitem a santidade do Ramadão", disse o número dois do grupo, Ja'far Shodiq, acrescentando que "o FPI não é contra a diversão -- mas, às vezes, a diversão pode roçar a imoralidade".

Na China, o início do Ramadão ficou marcado pela habitual proibição aos funcionários públicos, estudantes e crianças da região maioritariamente muçulmana de Xinjiang de participarem no jejum diurno.

O Ramadão é um dos cinco pilares do Islão e um mês durante o qual os fiéis devem dedicar-se à piedade e caridade, bem como à compaixão e generosidade.

O recém-eleito presidente da câmara de Londres, o muçulmano Sadiq Khan, sublinhou isto mesmo num artigo publicado na edição online do Guardian, afirmando que o Ramadão "representa uma oportunidade para partilhar o pão e construir pontes entre comunidades".

O Presidente norte-americano, Barack Obama, também celebrou o início do Ramadão numa mensagem prestando homenagem aos muçulmanos nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Mas também mandou uma indireta ao pré-candidato presidencial republicano Donald Trump sem o nomear, dizendo: "Vamos continuar a receber imigrantes e refugiados na nossa nação, incluindo aqueles que são muçulmanos".

Trump causou polémica ao apelar para que fosse barrada a entrada a muçulmanos nos Estados Unidos, após um ataque com armas de fogo em San Bernardino, Califórnia, em dezembro de 2015.

Os xiitas do Iraque, Irão, Líbano e outros países começarão a cumprir o Ramadão na terça-feira.

Lusa

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