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Austrália negou cidadania a centenas de imigrantes por suposta atividade comunista

A Austrália negou durante décadas conceder cidadania a centenas de imigrantes que chegaram ao país após a II Guerra Mundial devido a supostas atividades comunistas, noticiam hoje meios de comunicação social locais.

Reuters

Uma equipa da cadeia televisiva SBS examinou milhares de documentos, anteriormente classificados, do Arquivo Nacional da Austrália, os quais mostram que as avaliações de segurança de centenas de pessoas supostamente ligadas a organizações comunistas eram adversas e que, como consequência, lhes foi recusada a cidadania durante décadas.

Ter frequentado clubes ligados a países comunistas ou pertencido a sindicatos de esquerda eram dois dos argumentos invocados pelos serviços de inteligência (ASIO, na sigla em inglês) e pelo Ministério da Imigração para pôr os imigrantes na lista negra.

Os documentos oficiais não mencionam qualquer preocupação relativamente a uma potencial conduta criminosa, por exemplo, com as objeções a ocorrerem apenas com base na perceção dos pontos de vista políticos dos "australianos não desejados".

Este tratamento não resultou somente na recusa de cidadania, no ostracismo e na exclusão social dos imigrantes, mas também na dificuldade em manterem um emprego ou viajarem para fora do país, inclusive nos casos de emergências familiares.

As autoridades australianas também fizeram escutas aos seus telefones, fotografaram-nos, vigiaram as suas contas bancárias e censuram a sua correspondência.

"Disseram-nos que vínhamos para um país livre", disse à SBS Giovanni Sgro, um imigrante italiano que teve de esperar 20 anos para obter a cidadania e que teve de cancelar uma viagem ao seu país de origem para visitar a mãe, que estava a morrer, porque as autoridades australianas lhe recusaram a autorização para regressar.

Claudio Villegas, um espanhol opositor ao ditador Franco, contou, por seu turno, que outros imigrantes lhe recomendaram que não se envolvesse em atividades políticas na Austrália se pretendia obter a cidadania.

O espanhol decidiu não seguir os conselhos e até hoje o Ministério da Imigração recusa desclassificar os documentos ligados ao seu pedido rejeitado, segundo a SBS.

Michael Kirby, ex-juiz do Tribunal Superior da Austrália e que acabou de terminar uma investigação para a ONU sobre os direitos humanos na Coreia do Norte, sublinhou que o país oceânico deve "reconhecer os erros cometidos no Parlamento nacional".