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Mortalidade materna caiu 44% desde 1990 mas desigualdade entre países duplicou

A mortalidade materna caiu 44% desde 1990 no mundo mas a discrepância entre os países com maiores e menores taxas duplicou e um quarto das mulheres ainda tem os filhos sem qualquer assistência médica.

As conclusões são de uma série de seis estudos hoje publicada pela revista científica The Lancet, que atualiza dados de há dez anos e revela que há atualmente 210 milhões de gravidezes por ano e 140 milhões de nascimentos.

"O progresso ao nível global mascara grandes variações entre países e dentro dos países. (...) Parece uma história boa, mas é uma faca de dois gumes: há boas notícias e não tão boas notícias", disse à Lusa a coautora da série Wendy J. Graham, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Com a mensagem "Cada mulher, cada recém-nascido, em qualquer lugar, tem o direito a cuidados de saúde de qualidade", o estudo conclui que, em termos gerais, o panorama da saúde materna melhorou nas últimas décadas: a mortalidade materna caiu 44% desde 1990 e o acesso aos serviços de saúde materna aumentou significativamente.

No entanto, estas melhorias não chegaram para se alcançar o Objetivo de Desenvolvimento do Milénio, que previa reduzir em 75% a mortalidade materna e, pior do que isso, agravaram-se as desigualdades.

Em 1990, a taxa de mortalidade materna dos 10 países com piores níveis era 100 vezes mais elevada do que nos 10 países com melhores resultados. Em 2013, a diferença duplicou para 200 vezes mais.

Na África subsaariana, por exemplo, o risco de uma mulher morrer na gravidez ou no parto é de uma em cada 36, enquanto nos países ricos esse risco desce para uma em cada 4.900.

Outra conclusão do estudo é que o acesso das mulheres aos serviços de saúde materna aumentou consideravelmente e hoje 75% das parturientes do mundo já têm os filhos com a assistência de profissionais qualificados.

No entanto, alertam os autores, isto significa que um quarto - quase 53 milhões de mulheres, sobretudo nos países mais pobres ou entre as comunidades mais pobres de outros países - não têm qualquer assistência qualificada no parto.

Mesmo entre as que usam os serviços de saúde, muitas não têm acesso a cuidados de saúde de qualidade.

Para Wendy J. Graham, "o mais dececionante [no estudo] é a questão da qualidade dos cuidados que as mulheres estão a receber. As mulheres aceitaram a ideia de recorrer às unidades de saúde - três quartos têm partos em unidades - mas em muitas partes do mundo, a qualidade não é boa, não é o que elas merecem".

Segundo o estudo, muitas mulheres experimentam, nas unidades de saúde, um de dois extremos: demasiado pouco e demasiado tarde, por um lado, e demasiado ou demasiado cedo, por outro.

Nos países de alto e médio rendimento, assim como nos grupos mais bem-sucedidos dos países pobres, há um risco crescente de sobremedicalização da gravidez e do parto, com utilização rotineira de intervenções não apoiadas em evidência, concluem os autores do estudo.

"Cuidados de saúde que são demasiado, demasiado cedo, podem provocar danos, aumentar os custos da saúde e contribuir para uma cultura de desrespeito e abuso", escrevem os investigadores.

A episiotomia de rotina é um exemplo desses cuidados, assim como a administração profilática de antibióticos no parto, que além de não ter benefícios comprovados pode mascarar uma infeção e contribui para a resistência aos antibióticos, disse Wendy J. Graham.

No outro extremo, cuidados maternos que são demasiado poucos ou chegam demasiado tarde põem em causa a saúde da mulher e do recém-nascido.

"Uma coisa que demonstrámos é que, em muitos locais, os serviços não conseguem fornecer cuidados em partos não complicados e alguns nem sequer têm serviços básicos, como água ou saneamento. É perturbante pensar que há hospitais que não têm água e saneamento", disse outra coautora do estudo, Oona Campbell, em entrevista à The Lancet.

Segundo o estudo, em quatro dos sete países da África subsaariana estudados, mais de dois terços dos nascimentos em unidades de saúde ocorreram em locais que não tinham infraestruturas básicas, como água, e mais de metade ocorreram em unidades sem uma urgência obstétrica básica.

Outra conclusão é que, a par da redução da mortalidade materna, está a tornar-se mais evidente a morbilidade materna, estimando-se um total de 27 milhões de episódios em 2015, apenas contabilizando as cinco principais causas obstétricas (hemorragia pós-parto, eclampsia, pre-eclampsia, complicações graves resultantes de aborto e sepsis puerperal).

Wendy J. Graham lembra que a morbilidade materna está também associada à transição das doenças infeciosas para as doenças não transmissíveis, como a diabetes e as doenças cardiovasculares.

"O que isso significa é que há mais mulheres com esses problemas indiretos (...). No passado, algumas dessas mulheres (...) morriam na infância ou não conseguiam engravidar".

Para a especialista, a aposta tem de ser na qualidade dos serviços de saúde: "Se nos focarmos na qualidade dos serviços, mais mães e crianças serão salvas, mais morbilidade será tratada antes de se tornar grave e ameaçadora para a vida e haverá mais prevenção. A qualidade dos cuidados é crucial para fazer uma grande diferença na era pós-2015".

Lusa

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