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Dia do Holocausto na Alemanha perturbado por incidente com extrema-direita

© Agencja Gazeta / Reuters

As cerimónias do Dia da Homenagem às Vítimas do Holocausto na Alemanha foram esta sexta-feira perturbadas por um incidente com um deputado do partido de extrema-direita populista Alternativa para a Alemanha, excluído de dois atos oficiais.

As cerimónias centraram-se em Berlim, na Bundestag, a câmara baixa do parlamento alemão. O presidente da assembleia, Norbert Lammert, apelou numa cerimónia para que sejam resgatadas do esquecimento as 300.000 vítimas de eutanásia aplicada pelo regime nazi (1933-1945) a doentes e deficientes.

No discurso que proferiu, perante a chanceler, Angela Merkel, e o presidente, Joachim Gauck, Lammert recordou que a morte dessas pessoas serviu de "ensaio" e "modelo" para os posteriores assassínios em massa nos campos de concentração. Recordar as biografias destas pessoas, "torturadas e assassinadas" com "o argumento hipócrita" de que servia o interesse geral e o dos doentes, permite devolver-lhes, "pelo menos com caráter póstumo", "a sua dignidade", disse.

A Bundestag recordou vítimas desse programa de eliminação de doentes e deficientes através das histórias pessoas de Ernst Putzki, Benjamin Traub, Anna Lehnkering e Norbert von Hannenheim.Sebastian Urbanski, um ator com síndrome de Down, leu uma carta escrita por Putzki no sanatório onde foi internado pelos nazis por alegada "doença mental", Benjamin Traub e Anna Lehnkering foram recordados por sobrinhos e Von Hannenheim, compositor, recordado através da sua música, com a interpretação de uma das suas obras pelo músico Felix Klieser, que nasceu sem braços.

O incidente ocorreu no parlamento regional da Turíngia, cujo presidente impediu o acesso às cerimónias de Björn Höcke, um deputado pelo AfD (Alternativ für Deutschland) que causou polémica ao qualificar o Memorial do Holocausto de Berlim de "monumento de vergonha no coração da capital" num discurso proferido há dez dias.

Höcke, dirigente do AfD na Turíngia, onde se situa o campo de concentração de Buchenwald, também pediu "uma mudança de 180 graus na política de evocação" dos crimes do regime nazi, alegando que a Alemanha está presa à vergonha pelo Holocausto.

Quando Höcke, 44 anos, apareceu hoje na assembleia regional para a cerimónia que assinalou o Dia Internacional da Memória do Holocausto, o presidente, Christian Carius, impediu-o de assistir, dizendo-lhe que a sua "presença seria vista como uma provocação", especialmente pelos sobreviventes do campo de concentração que assistiam ao ato.

O AfD reagiu à exclusão considerando-a "um ponto baixo na história do parlamento regional" que "suscita dúvidas consideráveis quanto ao seu entendimento da democracia".

O AfD, que surgiu em 2013 como partido eurocético, evoluiu depois para um discurso contra o multiculturalismo, contra o islamismo e contra a presença de mais de um milhão de refugiados aceites pela Alemanha desde 2015.Horas depois, Höcke foi também impedido de entrar em Buchenwald para uma cerimónia de deposição de flores.

"Depois deste discurso, a participação de Höcke na deposição de uma coroa de flores no antigo campo de concentração de Buchenwald é inaceitável", afirmou na véspera o vice-presidente da fundação que gere o campo.

O responsável frisou no mesmo texto que a Fundação não exclui pessoas, apenas comportamentos, e convidou Höcke a visitar o campo noutro dia, para "se informar das devastadoras consequências" da política do regime nazi.

O Dia Internacional da Memória do Holocausto é assinalado a 27 de janeiro, data da libertação, há 72 anos, do capo de Auschwitz-Birkenau, na Polónia ocupada.

O Dia honra a memória de seis milhões de judeus europeus e centenas de milhares de outras vítimas do genocídio nazi, entre as quais ciganos, homossexuais e prisioneiros de guerra.

Lusa

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