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Moradores juntam-se para pedir paz nas favelas do Rio de Janeiro

(arquivo)

Ricardo Moraes

Cercados por uma onda de violência, os moradores das favelas do Rio de Janeiro, organizações cívicas e entidades públicas uniram esforços para defender a paz no complexo de favelas da Maré, uma das maiores e mais perigosas comunidades do Brasil.

A iniciativa em prol da paz na região é uma ação coletiva de instituições e organizações não governamentais que criaram o "Fórum Violência Chega! Outra Maré é possível!".

"Nós participamos nesse movimento desde o final de fevereiro", disse em entrevista à agência Efe a moradora Taisa Jesus Custódio, 27 anos, membro do grupo.

"Queremos discutir o acesso à segurança pública dentro da Maré, não temos acesso agora", acrescentou.

Em 2016, pelo menos 33 pessoas morreram nas 16 favelas que fazem parte do complexo da Maré, localizado na zona norte do Rio de Janeiro, durante confrontos entre a polícia e traficantes que dominam a área e que já causaram quinze mortes este ano.

Segundo estimativas oficiais, mais de 130 mil pessoas vivem neste complexo de favelas.

A área foi ocupada pelo Exército Brasileiro entre 2014 e 2016, durante a realização do campeonato do mundo de futebol e os Jogos Olímpicos, mas com destes eventos desportivos a saída da polícia militar resultou no aumento dos índices de violência.

A administração do Estado do Rio de Janeiro planeava instalar na Maré várias Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), como já fez noutras favelas da cidade para reduzir as estatísticas de violência, mas uma grave crise económica obrigou as autoridades a adiar o projeto.

"O Estado não tem uma estratégia para combater a violência", disse Taisa Jesus Custodio.

Outra moradora membro do Fórum, Joelma Souza, criticou a forma como a polícia entra nas favelas.

"Os moradores das favelas têm mais medo do Estado dentro da favela, porque quando a polícia chega não nos vê como residentes, mas como inimigos. Nós não temos direitos", frisou Joelma Souza.

Esta moradora acrescentou que "as áreas periféricas das cidades são as mais violentas porque são pobres. A violência aqui é constante. A luta contra as drogas transformou-se numa guerra e é o resultado de uma ideologia de violência que responde com violência".

"Entendemos que há necessidade de uma nova política de segurança pública, de forma mais inteligente, que não venha com a ideologia de guerra. Agora, o objetivo da polícia quando entra na favela é matar" criticou Joelma Souza.

Taisa Jesus Custódio também se referiu aos problemas causados pelas operações policiais no dia a dia dos habitantes do complexo da Maré.

"Com tiroteios, não podemos ir para o trabalho, as crianças não podem ir à escola, os postos de saúde não funcionam e se você tem uma consulta médica e está na fila durante meses pode perdê-la", lamentou.

Para esta moradora e ativista, a solução virá quando as autoridades policiais mudarem a estratégia e, assim, realmente resolver o problema.

De acordo com os últimos dados disponíveis, cerca de 38 mil pessoas foram mortas no Rio de Janeiro entre 2002 e 2017, o que representa uma média de sete homicídios por dia.

Além disso, 90% dos assassinatos cometidos na cidade não foram punidos.

Lusa

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