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Historiadora francesa avisa que "Maio de 68" não morreu

Stephane Mahe

Cinquenta anos depois do movimento de protestos e de greves que paralisaram a França em maio e junho de 1968, a historiadora francesa Ludivine Bantigny avisa que "68 não morreu".

Num momento em que estão marcadas greves nos caminhos de ferro franceses até finais de junho e em que o universo editorial revive o "Maio de 68' com o lançamento de inúmeras obras, a autora do livro "1968. De Grands Soirs en Petits Matins" não pensa, "de todo, que 68 esteja morto".

1968 "não morreu porque há uma vontade de fazer viver o passado e de lembrar o que foi esta greve e os projetos que a acompanharam. Há uma memória que foi muito deformada. O que é interessante neste cinquentenário é que há uma verdadeira sede de saber mais sobre os projetos de 68 para melhorar a vida e as condições de trabalho", explicou a historiadora.

Ludivine Bantigny não gosta da expressão "Maio de 68" porque o movimento precedeu o mês de maio e "em junho ainda havia três milhões de pessoas em greve geral, confrontos em certas fábricas e centenas de expulsões de estrangeiros, nomeadamente de portugueses".

Hoje, "o mundo dos empregados, operários, agricultores, artesãos e até estudantes do secundário quer recuperar a memória de 68" que lhes foi retirada pela "memória hegemónica dos media que destacaram personalidades como Daniel Cohn-Bendit".

"Não se trata de fetichizar 68 ou de fazer um modelo, mas creio que se vive algo próximo de 68, uma espécie de mistura entre diferentes movimentos", argumentou a professora de História Contemporânea na Universidade de Rouen, apontando várias greves em França.

Além dos ferroviários, estudantes universitários e funcionários públicos, foram registadas, recentemente, greves em "setores invisíveis", por exemplo, numa empresa de limpezas encarregue das gares parisienses e num hotel da região de Paris.

O passado e o presente

Descrevendo que viu, há pouco tempo, 'grafittis' com as frases "68 é amanhã" e "Vamos refazer 68", Ludivine Bantigny comparou as atuais paralisações "ao pico de greves que houve em 1967" e alertou que "68 não foi só a Renault e a Peugeot, foi um conjunto de muitas pequenas empresas que também entraram em greve".

"As condições objetivas e subjetivas estão reunidas porque as condições laborais degradaram-se. Há uma competição generalizada, muita pressão, as pessoas estão fartas e há um desencanto com os políticos. Os ingredientes estão todos juntos", afirmou, quando questionada se pode haver um novo "maio de 68".

Para a historiadora, "68" foi um movimento mundial, de "aspiração à liberdade" e que, em França, se caracterizou pela greve geral e pelas ocupações de fábricas, escritórios, lojas, serviços públicos, estações de comboio, portos, liceus, universidades, museus, teatros e casas da cultura.

"É um movimento social extremamente subversivo porque é acompanhado por ocupações e por um debate sobre a utilização desses espaços, com uma grande aspiração para mudar de vida e para encontrar áreas de emancipação. Depois, há alianças únicas entre o mundo estudante, o mundo dos empregados e o mundo dos camponeses", descreveu.

Enquanto "movimento de aspiração à liberdade", naquela altura houve "a consciência que se podia questionar a sociedade sobre as desigualdades e sobre o modo de produção no qual se trabalhava demais".

"É isso que explica a rebelião e esta aspiração, digamos, revolucionária. É impressionante: todos falam em revolução. Todos têm a impressão de viver um momento quase revolucionário porque todos passam a poder tomar a palavra e há uma vontade crítica de falar das condições de vida, de trabalho e do mundo", continuou.

Quanto à dimensão internacional do movimento, além das mobilizações juvenis a nível mundial, há uma "bússola internacionalista e anticolonialista" contra as intervenções militares das grandes potências, contra a guerra americana no Vietname, e em França, notou-se "uma solidariedade entre franceses e estrangeiros".

"É uma solidariedade prática que passa, por exemplo, nos comités de greve, por panfletos redigidos em duas línguas, como francês e português, espanhol e francês, francês e árabe. Há cartazes em português, espanhol e árabe nos locais ocupados porque há muitos operários que vêm de diferentes países", concluiu, apontando que além das linhas geopolíticas, o movimento questionou "as fronteiras interiores".

Com Lusa

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