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A noite dos paradoxos

Não há como esconder, o PS é o grande derrotado destas eleições. Por culpa própria, por mérito dos adversários, os socialistas não souberam, ou não puderam, merecer a confiança dos eleitores. Dir-se-á, e é verdade, que o PS melhorou a sua votação relativamente a 2011 (só faltava que não melhorasse…), mas o objetivo não era esse. O objetivo era ganhar: ter mais deputados do que a coligação. E não teve. Nem pouco mais ou menos. Não foi sequer uma vitória «poucochinha», porque não foi vitória. Assim sendo, impõe-se que António Costa se submeta ao veredicto dos socialistas. Porque não costuma virar a cara à luta, deve fazer o mesmo que exigiu a António José Seguro. Ou seja, deve abrir um processo eleitoral no PS que conduza ao (re)legitimação da liderança. A sua declaração será prudente, numa perspetiva pessoal, ao não se demitir no imediato. Mas só terá a ganhar se for ele próprio a desencadear um processo de clarificação interno.

A derrota do PS não esconde também o facto de a coligação Portugal à Frente ter perdido a maioria absoluta com que governou mais de quatro anos. A maioria dos eleitores que foram votar escolheu uma maioria de deputados que não se reconhecem nas ideias da coligação. Os parlamentos governam-se pela lei da maioria, qualquer que seja, não se governam apenas e necessariamente por quem surgiu em primeiro lugar no pelotão. Há uma maioria aritmética de esquerda na Assembleia da República.

A grande questão é se essa maioria é uma maioria política. Para já, não parece. E parece menos quando olhamos para a dificuldade em que o PS está mergulhado. E mesmo quando olhamos para um Partido Comunista que se viu alcançado pelo Bloco de Esquerda e que não recuará no seu voto de protesto. O Bloco não ganhou as eleições, mas foi o grande vencedor da noite: o melhor resultado de sempre, mais do que duplicou o seu número de deputados.

Bastou ouvir as declarações do BE e do PCP para se perceberem os cadernos reivindicativos para um entendimento com o PS. O do Bloco mais suave, o do PCP igual a si próprio. Em qualquer caso, dificilmente o tratado orçamental, por mais inteligentes que sejam as suas interpretações, poderá compatibilizar um entendimento sustentável à esquerda. Ou seja, um Parlamento de esquerda dificilmente gerará um governo de esquerda. O que vem aí é uma enorme necessidade de compromisso.

Para esse compromisso é precisa clareza. No PS, por enquanto, depois desta derrota dificilmente tudo ficará na mesma. António Costa só poderá ser levado a sério se se relegitimar. PSD e CDS já perceberam que o seu próximo governo precisa de ser mais político, mais combativo, mais dialogante. Parece paradoxal, mas não tem de ser.

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