Opinião

O Desporto e a Fé, entre o Euro e os Jogos

A competição desportiva tem, na sua origem, uma dinâmica religiosa. De transcendência e de ética. A virtude – arete – do atleta vê-se pela sua capacidade de superação. Pelo encontro e desencontro com os (im)possíveis. O atleta prepara-se, com técnica e tática. Mas nem tudo depende dele e ele sabe disso. Na competição desportiva, o acaso é sorte ou azar dependendo do ponto de vista. Nos jogos clássicos, os gregos resolveram este problema que tanto intriga quem se esforça. Todos eram heróis, embora a glória viesse da vontade dos deuses. O melhor, o mais bem preparado, estaria sempre mais próximo da vitória, nos jogos olímpicos ou na odisseia de um combate bélico, mas a intervenção divina podia alterar o desfecho. Fora assim nas batalhas épicas entre gregos e troianos, era assim no terreno da competição desportiva. A esperteza de Ulisses foi inspirada no desespero de um deus feito homem com sede de vingança.

A competição desportiva tem, na sua origem, uma dinâmica religiosa. De transcendência e de ética. A virtude – arete – do atleta vê-se pela sua capacidade de superação. Pelo encontro e desencontro com os (im)possíveis. O atleta prepara-se, com técnica e tática. Mas nem tudo depende dele e ele sabe disso. Na competição desportiva, o acaso é sorte ou azar dependendo do ponto de vista. Nos jogos clássicos, os gregos resolveram este problema que tanto intriga quem se esforça. Todos eram heróis, embora a glória viesse da vontade dos deuses. O melhor, o mais bem preparado, estaria sempre mais próximo da vitória, nos jogos olímpicos ou na odisseia de um combate bélico, mas a intervenção divina podia alterar o desfecho. Fora assim nas batalhas épicas entre gregos e troianos, era assim no terreno da competição desportiva. A esperteza de Ulisses foi inspirada no desespero de um deus feito homem com sede de vingança.

Outras culturas religiosas desenvolveram a ideia de intervenção divina na história. No monoteísmo hebraico, a astúcia de David vem do “alto” para derrotar Golias. Era na conjugação de duas vontades, a humana e a divina - thelema – que desenhavam a explicação dos feitos heroicos e proféticos.

Não admira, por isso, a carga simbólica da competição desportiva. Num percurso de valores e significados, representa mais do que o esforço físico e anímico de um atleta. Pela imprevisibilidade - que garante o princípio da competição - constroem-se estádios, concentram-se multidões, fazem-se celebrações planetárias, ouvem-se hinos, sobem bandeiras, erguem-se taças, promove-se a autoestima.

Se os jogos Pan-Helénicos impunham tréguas sagradas, permitindo a livre circulação de inimigos para acesso à competição em Olímpia, as competições desportivas do nosso tempo paralisam o mundo mediático, elevando a emoção para um endeusamento transversal dos protagonistas. E se os jogos clássicos impunham rotinas, com ritos religiosos e civis, as competições mediatizadas, como um Campeonato da Europa de Futebol ou os modernos Jogos Olímpicos, acrescentam a capacidade de moldar ritmos e agendas mediáticas.

Na competição desportiva, enquadram-se “elementos de uma religião e a ampliação mediática é um investimento que reconstrói a emoção da pureza, o sonho do ideal desportivo em que todos são iguais na oportunidade, apesar da diferença real das capacidades, que a competição pode revelar” (1).

A técnica e a tática são determinantes, mas a imprevisibilidade está fora do domínio humano. “O «sobre-humano» conjuga-se também com a surpresa do imprevisível, e, nesta luta individual ou coletiva pela superação, constroem-se narrativas míticas e de fé. Em contexto religioso, o acaso pode ser ocasião. Em ambiente de competição desportiva, o vento, o sol, a chuva, os poucos milímetros do poste de uma baliza ou da pegada de um salto em comprimento podem fazer a

diferença entre a coroa da vitória e a resignação da derrota”. (2).

À sacralidade simbólica do evento desportivo, junta-se à vivência, individual ou coletiva, do sagrado. O Europeu de Futebol, que trouxe a Portugal e aos portugueses uma alegria inédita, transportou também esta dimensão. A serenidade de Rui Patrício enquadra-se numa experiência de meditação e fé. Próximo do grupo Bhakti Marga, do mestre Sri Swami Vishwananda, Rui Patrício promove uma prática de vida baseada no “Amor, Paciência e Unidade”, para, explica o movimento, “criar uma fórmula intemporal que indica tanto o objetivo, como o caminho para o atingir” (3). Vale a pena rever o guarda-redes nos minutos dos pontapés decisivos no jogo contra a Polónia e perceber o valor da concentração.

Noutra dimensão, vimos em várias ocasiões o treinador em oração, fechando os olhos e agarrando nas mãos o símbolo da sua devoção – a cruz. Membro do movimento católico dos Cursilhos de Cristandade, Fernando Santos transporta a fé para a vida de forma pragmática. A carta que deu a conhecer, apontando previamente a celebração da vitória, é um testemunho da força de uma convicção religiosa esclarecida, que atribui à fé o papel que a fé pode ter... para um cristão... no desporto, como em tudo na vida. Santos sentiu-se “iluminado e guiado”, mas define o conceito de omnipotência divina na vontade e esforço dos homens. A vitória portuguesa, que significou também a derrota de outros, não resulta da manifestação do Deus velho-testamentário, castigador, que decide e impõe. Contando também com o acaso, que simbolicamente ganhou contornos de hierofania quando uma bola foi ao poste da baliza de Patrício nos últimos minutos do jogo, é fruto de muito trabalho, engenho e abnegação. Santos dedica ao seu “Amigo” a “conquista”, agradece-Lhe ter sido “convocado” e por lhe ter sido “concedido o dom da sabedoria, da perseverança e humildade” para guiar a equipa.

Se o pensamento religioso clássico depositava na moira – o destino traçado pela intervenção direta dos deuses – a explicação para o imprevisível, a razão cruzada com a fé adianta-nos que ganhar e perder faz parte do equilíbrio da contingência desportiva e humana, e o agradecimento de Santos, em jeito de confissão, remete-nos para o papel inegável da fé.

Não cabe aqui fazer exercícios de teologia ou hermenêutica sobre íntimas e insondáveis convicções, seja de quem for. Acreditar, em contexto desportivo, com enquadramento religioso ou não, pode ter um valor que ultrapassa a mera razão da técnica e da tática. Não é apenas vontade ditada pelo querer e pela evidência das capacidades. É impulso de superação para lá do explicável no momento, ampliando e conjugando o que à primeira vista nem se vislumbra, elevando os limites.

Há 10 anos, Fernando Santos teve a gentileza de escrever umas palavras de contracapa numa aventura editorial chamada Um Menino chamado Natal, onde se fazia uma abordagem poética pelas narrativas da natividade cristã. Para ele, o mistério da fé é "Presente em cada dia e a vida continuada". E o que espanta é que isto ainda seja motivo para tanto espanto...

Nota: Os grandes eventos desportivos fazem-se no campo da competição e à volta. Se houve vencedores e vencidos no certame, também houve lições para a vida. A imagem de um “petit portugais” a consolar um adepto adulto francês vai para lá do fenómeno do futebol. Na era mediática, dos impactos virais, a compaixão inocente do jovem descendente de emigrantes portugueses faz-nos acreditar que é possível. O gesto daquele miúdo eleva-nos à essência...

(1) (2) FRANCO. J. (2013), A Celebração Planetária. In Olímpico, Coord Paulo Mendes Pinto. Lisboa: Edições Afrontamento

(3) www.bhaktimarga.org

  • Três sportinguistas analisam entrevista de Bruno de Carvalho
    1:29
  • Manuel Pinho não terá declarado dinheiro que recebeu
    2:45

    Economia

    Manuel Pinho não terá declarado ao Tribunal Constitucional o dinheiro que recebeu do chamado saco azul do Grupo Espírito Santo. Esta terça-feira, no Parlamento, o antigo ministro da Economia de José Sócrates foi questionado sobre o assunto mas recusou responder.

  • Ora Eça!

    Opinião

    Eça, o meu conterrâneo que se definia como sendo "apenas um pobre homem da Póvoa de Varzim" não haveria de gostar de nada que fosse obrigatório. Durante décadas, Os Maias lá estiveram, quem sabe numa progressista lista pós-revolução, dada a natureza "sexual e incestuosa" da obra. Sai dessa lista agora. Claro que sai. "Ninguém" gostava de "ter de" ler Os Maias.

    Pedro Cruz

  • Jovens tailandeses poderão vir a sofrer de transtornos a longo prazo
    2:30

    Mundo

    Os 12 rapazes e o treinador resgatados de uma gruta da Tailândia já tiveram alta. Uma semana depois, saíram do hospital e deram uma conferência de imprensa em que se mostraram sorridentes. No entanto, os especialistas advertem que poderão vir a sofrer de transtornos a longo prazo, se forem obrigados recorrentemente a reviver tudo o que passaram.

  • Os portugueses que se cruzaram na vida de Mandela
    2:19
  • Cem anos de Mandela: o legado de um "gigante da História"

    Mundo

    Na história da Humanidade contam-se muito poucas figuras capazes de gerar uma aclamação unânime e global de elogio e agradecimento. Nelson Mandela está nessa lista de eleitos. No dia em que completaria 100 anos, recordamos o legado de "Madiba", um dos maiores impulsionadores da paz que este mundo já conheceu.

    André de Jesus

  • Será este o táxi mais autografado do mundo?
    2:27
  • Quem é a mais recente líder da Sonae?
    2:16
  • Rádio Escuta dá voz aos imigrantes que vivem em Lisboa
    4:02

    País

    Uma rádio comunitária está no ar, por estes dias, no bairro do Intendente, em Lisboa. O projeto é temporário e termina no próximo domingo. Mas até lá, a Rádio Escuta chega a mais de 100 países, pela internet, e dá voz aos imigrantes de diversas origens que vivem em Lisboa.

  • Lisboa vai ser Capital Verde da Europa em 2020
    2:54

    País

    O vereador do Ambiente de Lisboa quer envolver todos os cidadãos, empresas e agentes culturais na Capital Verde da Europa em 2020. Lisboa é a primeira cidade do sul da Europa a conseguir a distinção e, até lá, a Câmara promete um conjunto de investimentos para tornar a capital portuguesa um exemplo na área ambiental. Um deles é a construção de uma central solar.

  • Donald Trump em nova polémica

    Mundo

    O presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, fez estalar uma nova polémica ao chamar ao Montenegro um "país muito pequeno" cujos habitantes são "muito agressivos" e por parecer questionar o princípio da defesa mútua dentro da NATO.

  • Urso apanhado na piscina de moradia de luxo na Califórnia
    1:35