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Anselmo Crespo

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Anselmo Crespo

Editor de Política SIC

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A culpa é tua. Não, a culpa é tua. Não, desculpa, mas a culpa é toda tua...

Anselmo Crespo

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Na banca, como em tudo o resto, os políticos são doutorados em atirar as culpas de uns para os outros. O pesadelo que vivemos no sistema financeiro é apenas um de muitos exemplos. Mas já que este é o tema que marca a atualidade nacional, vamos a ele.

Não há volta a dar. PS e PSD são, politicamente, os principais responsáveis por aquilo que se está a passar na banca portuguesa. E não vamos ficar pela espuma dos nomes. Passos Coelho e António Costa não podem responder por tudo. A lista de nomes dava um casamento daqueles à antiga. Porque durante anos a promiscuidade entre banqueiros e políticos permitiu tudo. Porque durante anos, os governos só conseguiam mostrar obra com a ajuda dos banqueiros. Porque durante anos, os banqueiros ajudavam a eleger Presidentes e Primeiros-ministros. Porque durante anos, tudo foi permitido. E quem vier atrás, que feche a porta.

A política não explica tudo e há várias condicionantes a ter em conta. A lei. A supervisão, ou a falta dela. As regras europeias ou a falta de senso dessas regras. O caráter das pessoas. Esta última é, provavelmente, a mais complexa. A verdade é que não são apenas os bancos nacionais que estão em dificuldade. Espanha conseguiu evitar um resgate ao país em troca de um resgate aos bancos. Os bancos italianos estão mergulhados numa crise gigantesca. Em França (já ninguém se lembra) mas o sistema financeiro também foi fortemente abalado. E até a Alemanha (sim, a Alemanha) tem problemas com a banca. Isto significa que o que se passou em Portugal foi basicamente o mesmo que se passou lá fora. Valia tudo. Menos arrancar olhos. Mas se tivermos que arrancar os olhos de alguém, arranquemos aos desgraçados que nos emprestam e que nos pedem dinheiro emprestado. No fim do dia, conta o que que faturámos. E, muitas vezes, o que lucrámos pessoalmente com o que faturámos.

A crise no sistema financeiro é um dos maiores dramas que o mundo moderno enfrenta. Eu sei que temos outros problemas que parecem maiores, mas acreditem, este é de facto, muito grave. Sobretudo pela dependência que deixámos que se criasse em relação aos bancos. E como qualquer dependente, não nos conseguimos libertar. Quando surgiu a crise de 2008, qual foi a prioridade do mundo? Salvar os bancos. Retomar a "normalidade". Regressar aos mercados. Portugal (que melhor exemplo), conseguiu regressar aos mercados. E ficou muito feliz com isso. Porquê? Porque "voltou a consumir". Os mercados voltaram a emprestar e Portugal voltou a ficar dependente deles. Está tudo certo.

A economia mundial está assente em dívida. O comum mortal pede emprestado ao banco. O Estado pede emprestado ao banco. As empresas pedem emprestado ao banco. O banco, por sua vez, pede emprestado a quem fabrica nota. E quem fabrica nota mantém as rotativas a funcionar desde que ninguém falhe. Se alguém falhar, manda-se parar as máquinas. E espera-se que voltem a pagar.

Tudo isto para percebermos um pouco melhor o que se passou por cá. Com a Caixa Geral de Depósitos, com o BES, com o Banif, com o BPN, com o BCP, com o Montepio, só para dar "alguns" exemplos. Foi a crise? Foi. Foi má gestão? Foi. Foi muita promiscuidade? Foi. Foi muita decisão política errada? Foi. Porque é que ninguém viu isto antes? Porque ninguém imaginou que este dia ia chegar. Verdadeiramente, nem políticos, nem banqueiros, nem empresários, nem nenhum de nós viu o que aí vinha. E o que veio foi um banho de realidade.

O mais difícil neste momento não é identificar o problema. Por cá, quer o Governo de António Costa, quer o Governo de Passos Coelho, sempre tiveram o problema muito bem identificado. O mais difícil é resolvê-lo. E é difícil porque nenhum governo o vai conseguir resolver sozinho. Não enquanto estivermos amarrados a regras que não são nossas e, muitas vezes, à discricionariedade dessas regras. Não enquanto não percebermos que os problemas do sistema financeiro só se resolvem com soluções globais, com mudanças de paradigmas e não com pensos rápidos. Isto não significa que por cá, no que aos nossos bancos diz respeito, os problemas não tenham sido empurrados com a barriga. Numa lógica do "passa a outro e não ao mesmo". Mas a verdade é que de todas as soluções que foram encontradas para "resolver" os problemas dos bancos nacionais, nenhuma foi boa. Porquê? Porque na hora de decidir a quem é que se arrancam os olhos... as vítimas foram os suspeitos do costume.

E eis-nos chegados ao título deste texto. "A culpa é tua. Não, é tua. Não, desculpa, a culpa é toda tua". A conversa repete-se. Entre atuais e ex-primeiros-ministros. Entre atuais e ex-ministros das finanças. Entre atuais e ex-governadores de bancos centrais. Entre atuais e ex-administradores de bancos. Há uma certeza que tenho. A culpa pode até morrer solteira. Orfã é que não morre de certeza.

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