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Sr. Presidente há mais vida além das medalhas!

Desengane-se quem acha que Marcelo Rebelo de Sousa vai acalmar a sua desenfreada intervenção pública. Não há volta a dar. O Presidente avisou-nos quer ia ser hiperativo. Não é defeito, é feitio.

Ninguém tem dúvidas que Marcelo trouxe um estilo novo, e está mesmo a recrear o cargo de Presidente da República. Se com Cavaco Silva o lugar foi sacralizado e os muros do palácio cor-de-rosa tornaram-se intransponíveis, com Marcelo é tudo a abrir - Belém parece agora uma espécie de casa do povo. É positivo que o poder desça a terra e se aproxime dos eleitores, mas é também arriscado e pode resvalar num exercício autocentrado e várias vezes a roçar o populismo.


Não quero com isto dizer que Marcelo não possa distribuir comendas, medalhas, afetos e comentários em cada esquina. O que questiono é a forma, ou melhor, a mensagem que está a deixar em cada declaração. Mesmo correndo em pista própria, Marcelo não pode deixar que a sua agenda se sobreponha a tudo o resto.


Faz algum sentido que o Presidente fale como falou da Caixa Geral de Depósitos, garantindo soluções à vista quando elas não se vislumbram - e quando o banco público está como está? Faz algum sentido que o Presidente comente o Brexit num comunicado "contristado" e depois numa declaração fugidia no final de uma das tantas visitas que faz por semana - quando o assunto é grave e exigia um tom e um enquadramento mais formal? Faz algum sentido que o Presidente corra a garantir que vai pagar a sua parte da viagem de Falcon só porque o Correio da Manhã fez notícia (sensacionalista) dessa deslocação?


O Presidente tem de ser escutado, o poder da palavra é o seu bem maior. Mas quantos de vós já não mudaram de canal quando o vêm pela enésima vez? Não quero com isto dizer que defendo um cinzentão para Belém, não, mas o país também não precisa de um chefe de Estado em estado fosforescente.


É como se nos quisessem embebedar com shots diários (e quase horários) de Marcelo. Cuidado: depois da bebedeira vem a ressaca.


Quando chegou a Belém, Marcelo trazia o desafio de "descrispar" o país. No que toca à política, está a falhar. Consensos, como era óbvio, nem vê-los. E a tensão governo-oposição está numa escalada que só tende a piorar - veja-se o caso de Correia de Campos, ou mais recente entrevista de Passos Coelho. O país prossegue neste rumo insuportável, o PSD desorientado - e a apostar no "desastre"- e o Governo orientado apenas e só pelo jogo político de culpar o passado.


É neste tempo de difíceis equilíbrios, e profundas divisões que o papel do Presidente se torna ainda mais fundamental. A sua popularidade dá-lhe peso, não para ser o líder da oposição, e muito menos para se comportar como o chefe da banda. Do Presidente espera-se ponderação, gravitas e acima de tudo a devida distância. A convocação dos partidos e parceiros sociais para Belém é o sinal maior de que as coisas não estão bem. Marcelo sabe-o bem, mas entretanto vai afastando o mais que pode a crise política. Enquanto houver medalhas para distribuir para que preocupar-nos com coisa tão chatas como o défice, a dívida ou as sanções.


(São 19h de quinta-feira, Marcelo já falou duas vezes aos jornalistas. Está agora em direto nas televisões. No rodapé pode ler-se: Presidente da República comenta assuntos da atualidade…)

  • Marcelo saúda "forma rápida" como Conselho de Ministros "tratou de tudo"
    1:03

    País

    O Presidente da República lembra que é preciso convergência de forma a adotar rapidamente as medidas mais urgentes do plano de emergência. No concelho de Tábua, Marcelo Rebelo de Sousa destacou ainda os esforços do Conselho de Ministros, mas lembrou que as medidas anunciadas são apenas o início de um processo e não o fim.