sicnot

Perfil

Ricardo Costa

Opinião

Ricardo Costa

Diretor de Informação

Opinião

1961, quando Salazar entregou o Século XX a Soares 

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação

É fácil encontrar datas precisas ou redondas para assinalar a carreira de qualquer político. Na de Mário Soares isso não é exceção, bem pelo contrário, com demasiadas datas a poderem servir como âncora de grandes momentos: as eleições presidenciais, a adesão à CEE, o debate televisivo com Cunhal, a manifestação da Fonte Luminosa, a chegada a Lisboa depois do 25 de abril, a fundação do PS no exilio, a defesa de Humberto Delgado, o degredo, as doze prisões e as lutas contra a ditadura. Todas essas datas mostram a importância e a longevidade da carreira política de Soares, mas nenhuma aponta ao momento em que a história virou a seu favor de forma que se transformasse no político mais determinante do último quartel do Século XX e, para muitos (eu incluído), o mais importante da segunda metade do século.

Na longevidade política do Portugal contemporâneo ninguém ultrapassa António de Oliveira Salazar, o professor de Coimbra que entrou na política na sequência do 28 de Maio e encarnou de forma absoluta o repor de uma ordem desaparecida nos finais da monarquia e que nunca se viu na República. A ditadura era na essência isso mesmo, a imposição de um regime que não deixava margens para discordâncias ou dissidências, muito menos a qualquer tipo de oposição. Impunha uma ordem política, financeira, militar, territorial e securitária. A ordem vinha com o respeito absoluto e o medo constante atrás. Salazar impôs a sua autoridade ao controlar as finanças e o domínio total do governo chegou com naturalidade, num país cansado de crises políticas e financeiras que, na verdade, vinham das guerras liberais do Século XIX e nunca mais nos tinham abandonado de forma duradoura.

Sobre Salazar já está tudo escrito e dito, há uma magnífica biografia de Filipe Ribeiro Meneses, livros e memórias de muitos colaboradores e opositores, muitos livros de história e até documentários. Mas há um ponto indiscutível quando se olha para o percurso do ditador: a forma como tudo ficou mais complexo para ele é para Portugal depois da II Guerra Mundial. O que o fim do conflito mostrou foi a vitória de um lado, o das democracias liberais, como norma no mundo ocidental, com a exceção da zona de influência da União Soviética.

Na Europa restavam duas ditaduras, Portugal e Espanha (o totalitarismo chegou ainda mais tarde à Grécia), e só uma com um vasto império colonial. Salazar soube gerir a neutralidade durante o conflito e sair dele incólume, mas passou a viver num mundo político que já não era o dele. A ordem mundial nascida em 1945 rompeu em absoluto com os tempos que tinham permitido a ascensão das ditaduras europeias, fechando o ciclo das revoluções que varreram a Europa em 1848, deitaram abaixo muitas monarquias, viraram o século do avesso e abanaram o continente até à I Grande Guerra e às crises que levariam ao segundo conflito. A partir desse momento, a liberdade, a democracia e a economia de mercado impuseram-se à ordem pública e à mão de ferro das ditaduras, a uma economia rural em fim de vida e aos impérios coloniais que se desagregavam por todo o lado.

O mundo português de Salazar começou a morrer nessa altura.

O processo que levou ao fim do Estado Novo não foi rápido nem continuo, apesar de tudo à sua volta começar a mudar, da Europa do pós-guerra prosperar como nunca fora visto, das potências perceberem e aceitarem que os seus impérios não poderiam durar. As presidenciais de 1958 mostraram bem que só a fraude, o controlo dos cadernos eleitorais e o medo podiam impedir que o regime não sofresse derrotas em eleições. Salazar não estava preparado para o que aconteceu com Humberto Delgado, nem com o Bispo do Porto. Não era suposto que a instituição militar ou a Igreja fornecessem figuras que lhe fizesse frente.

É na sequência destas novas formas de oposição, populares internamente e com enorme repercussão internacional - e que punha a nu a pequenez e o atraso do regime -, que o ditador tem o seu ano horrível, o annus horribilis de 1961. É o ano do ataque ao Santa Maria, do início da sublevação em Angola, da perda irreversível de Goa e do golpe de Botelho Moniz. O império foi atacado aos olhos do mundo, como aconteceu com o Santa Maria, não garantiu a segurança dos colonos, como se viu em Angola, e perdeu uma colónia centenária com um piparote do exército indiano, num processo obviamente impossível de deter, a não ser aos olhos dos que se agarravam à integridade territorial, como se fosse um conceito religioso. Em cima disso tudo, o regime sofreu o mais sério golpe interno, o de Botelho Moniz, exatamente por causa das colónias. Atacado por dentro, nos territórios e com absoluta indiferença internacional, Salazar viu o mundo a mudar para sempre em 1961.

Ao golpe de Botelho Moniz não se seguiu nada de muito sério durante algum tempo. Entraram ministros mais novos, mais preparados e muito mais abertos ao mundo, alguns com ideias diferentes para as colónias. Mas o tempo passou a ser de guerra e de um caminho que não tinha uma saída. No fundo, tratava-se de manter um regime, uma política e um Império enquanto fosse possível, perante uma população profundamente inculta, controlada pela censura, pela polícia política e por eleições que não passavam de anedotas.

O regime acabou em 1974 e o Império em 1975. Mas foi muito antes, em 1961, que Salazar entregou o Século XX a Soares. O mundo da década de sessenta já não era o seu. O brilhante Professor de Coimbra transformou-se num líder datado, ultrapassado e isolado, assente num Estado, leis e mecanismos de defesa que desapareciam por todo o lado, e que se descontrolou ao ponto de deixar matar Humberto Delgado. E foi esse desfasamento temporal e politico que fez de Marcello Caetano, um homem brilhante, outro líder fora do tempo, chegado tarde de mais, quando o regime lutava por manter o que era impossível e tinha mais medo do que vontade de mudar. Em 1961, Salazar entregou o século XX a Mário Soares para que protagonizasse quase todas as mudanças seguintes. E é isso que a história registará.

  • Pedrógão e o Governo das culpas dos outros

    Opinião

    Depois das revelações do ‘Expresso’ e do ‘i’, o primeiro-ministro e os ministros saíram à rua com uma estratégia muito bem definida: desmentir a existência de listas secretas e centrar as atenções no Ministério Público. Ao mesmo tempo, nas redes sociais, está em curso (mais) uma campanha contra os jornalistas. Os anónimos, com cartão de militante, que escrevem nessas páginas acusam os jornais das “mais rebuscadas teorias da conspiração”. Nada de novo portanto.

    Bernardo Ferrão

  • "A verdadeira questão são as imagens com que abrimos o Jornal, é um país que está a arder"
    2:52

    Opinião

    A polémica em torno do número de vítimas da tragédia de Pedrógão Grande esteve em análise no Jornal da Noite. Miguel Sousa Tavares diz não compreender "que se faça disto uma questão política" e reitera que o foco deve centrar-se nas imagens de "um país que está a arder". O comentador SIC afirma ainda que "64 mortos num incêndio é um escândalo, um número absurdo".

    Miguel Sousa Tavares

  • "Hoje vi chover lume"
    3:57
  • Quase mil bombeiros combatem chamas na Sertã
    1:37

    País

    O incêndio que deflagrou no domingo, na Sertã, concelho de Castelo Branco, ainda não foi extinto. Perto de mil homens combatem as chamas no terreno, apoiados por 10 meios aéreos. O fogo tem frentes em Mação e Proença-a-Nova.

  • Proteção Civil acusada de gestão errática no incêndio de Mação
    1:26

    País

    O comandante dos Bombeiros de Constância e o vice-Presidente da Liga dos Bombeiros acusam a Proteção Civil de desviar meios do fogo de Mação, em Santarém, que eram essenciais para travar o incêndio. As chamas desceram da Sertã e acabaram por queimar uma casa de habitação.

  • Milhares de clientes da CGD vão pagar quase 5€/ mês por comissões de conta
    1:24
  • "A Minha Outra Pátria": o drama da Venezuela no Jornal da Noite
    2:12
  • O apelo da adolescente arrependida de ir lutar pelo Daesh

    Daesh

    Uma adolescente alemã que desapareceu da casa dos pais, no estado da Saxónia, esteve entre os vários militantes do Daesh detidos este fim de semana na cidade iraquiana de Mossul. Arrependida do rumo que deu à sua vida, deixou um apelo emocionado em que expressa, repetidamente, a vontade de "fugir" e voltar para casa.

    SIC

  • Bebé Charlie Grad já não vai receber tratamento nos EUA

    Mundo

    A mãe de Charlie Grad disse esta segunda-feira que o bebé poderia ter vivido uma vida normal, caso tivesse começado a receber tratamento cedo. Já o pai admitiu que o filho não iria viver até ao primeiro aniversário. O bebé foi diagnosticado com uma doença rara e um hospital em Inglaterra pediu permissão para desligar a ventilação artificial e fornecer-lhe cuidados paliativos. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos aceitou e, até hoje, os pais travaram uma batalha na Justiça para suspender a decisão na esperança de irem tratar o filho nos Estados Unidos da América.