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1961, quando Salazar entregou o Século XX a Soares 

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É fácil encontrar datas precisas ou redondas para assinalar a carreira de qualquer político. Na de Mário Soares isso não é exceção, bem pelo contrário, com demasiadas datas a poderem servir como âncora de grandes momentos: as eleições presidenciais, a adesão à CEE, o debate televisivo com Cunhal, a manifestação da Fonte Luminosa, a chegada a Lisboa depois do 25 de abril, a fundação do PS no exilio, a defesa de Humberto Delgado, o degredo, as doze prisões e as lutas contra a ditadura. Todas essas datas mostram a importância e a longevidade da carreira política de Soares, mas nenhuma aponta ao momento em que a história virou a seu favor de forma que se transformasse no político mais determinante do último quartel do Século XX e, para muitos (eu incluído), o mais importante da segunda metade do século.

Na longevidade política do Portugal contemporâneo ninguém ultrapassa António de Oliveira Salazar, o professor de Coimbra que entrou na política na sequência do 28 de Maio e encarnou de forma absoluta o repor de uma ordem desaparecida nos finais da monarquia e que nunca se viu na República. A ditadura era na essência isso mesmo, a imposição de um regime que não deixava margens para discordâncias ou dissidências, muito menos a qualquer tipo de oposição. Impunha uma ordem política, financeira, militar, territorial e securitária. A ordem vinha com o respeito absoluto e o medo constante atrás. Salazar impôs a sua autoridade ao controlar as finanças e o domínio total do governo chegou com naturalidade, num país cansado de crises políticas e financeiras que, na verdade, vinham das guerras liberais do Século XIX e nunca mais nos tinham abandonado de forma duradoura.

Sobre Salazar já está tudo escrito e dito, há uma magnífica biografia de Filipe Ribeiro Meneses, livros e memórias de muitos colaboradores e opositores, muitos livros de história e até documentários. Mas há um ponto indiscutível quando se olha para o percurso do ditador: a forma como tudo ficou mais complexo para ele é para Portugal depois da II Guerra Mundial. O que o fim do conflito mostrou foi a vitória de um lado, o das democracias liberais, como norma no mundo ocidental, com a exceção da zona de influência da União Soviética.

Na Europa restavam duas ditaduras, Portugal e Espanha (o totalitarismo chegou ainda mais tarde à Grécia), e só uma com um vasto império colonial. Salazar soube gerir a neutralidade durante o conflito e sair dele incólume, mas passou a viver num mundo político que já não era o dele. A ordem mundial nascida em 1945 rompeu em absoluto com os tempos que tinham permitido a ascensão das ditaduras europeias, fechando o ciclo das revoluções que varreram a Europa em 1848, deitaram abaixo muitas monarquias, viraram o século do avesso e abanaram o continente até à I Grande Guerra e às crises que levariam ao segundo conflito. A partir desse momento, a liberdade, a democracia e a economia de mercado impuseram-se à ordem pública e à mão de ferro das ditaduras, a uma economia rural em fim de vida e aos impérios coloniais que se desagregavam por todo o lado.

O mundo português de Salazar começou a morrer nessa altura.

O processo que levou ao fim do Estado Novo não foi rápido nem continuo, apesar de tudo à sua volta começar a mudar, da Europa do pós-guerra prosperar como nunca fora visto, das potências perceberem e aceitarem que os seus impérios não poderiam durar. As presidenciais de 1958 mostraram bem que só a fraude, o controlo dos cadernos eleitorais e o medo podiam impedir que o regime não sofresse derrotas em eleições. Salazar não estava preparado para o que aconteceu com Humberto Delgado, nem com o Bispo do Porto. Não era suposto que a instituição militar ou a Igreja fornecessem figuras que lhe fizesse frente.

É na sequência destas novas formas de oposição, populares internamente e com enorme repercussão internacional - e que punha a nu a pequenez e o atraso do regime -, que o ditador tem o seu ano horrível, o annus horribilis de 1961. É o ano do ataque ao Santa Maria, do início da sublevação em Angola, da perda irreversível de Goa e do golpe de Botelho Moniz. O império foi atacado aos olhos do mundo, como aconteceu com o Santa Maria, não garantiu a segurança dos colonos, como se viu em Angola, e perdeu uma colónia centenária com um piparote do exército indiano, num processo obviamente impossível de deter, a não ser aos olhos dos que se agarravam à integridade territorial, como se fosse um conceito religioso. Em cima disso tudo, o regime sofreu o mais sério golpe interno, o de Botelho Moniz, exatamente por causa das colónias. Atacado por dentro, nos territórios e com absoluta indiferença internacional, Salazar viu o mundo a mudar para sempre em 1961.

Ao golpe de Botelho Moniz não se seguiu nada de muito sério durante algum tempo. Entraram ministros mais novos, mais preparados e muito mais abertos ao mundo, alguns com ideias diferentes para as colónias. Mas o tempo passou a ser de guerra e de um caminho que não tinha uma saída. No fundo, tratava-se de manter um regime, uma política e um Império enquanto fosse possível, perante uma população profundamente inculta, controlada pela censura, pela polícia política e por eleições que não passavam de anedotas.

O regime acabou em 1974 e o Império em 1975. Mas foi muito antes, em 1961, que Salazar entregou o Século XX a Soares. O mundo da década de sessenta já não era o seu. O brilhante Professor de Coimbra transformou-se num líder datado, ultrapassado e isolado, assente num Estado, leis e mecanismos de defesa que desapareciam por todo o lado, e que se descontrolou ao ponto de deixar matar Humberto Delgado. E foi esse desfasamento temporal e politico que fez de Marcello Caetano, um homem brilhante, outro líder fora do tempo, chegado tarde de mais, quando o regime lutava por manter o que era impossível e tinha mais medo do que vontade de mudar. Em 1961, Salazar entregou o século XX a Mário Soares para que protagonizasse quase todas as mudanças seguintes. E é isso que a história registará.

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