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Bernardo Ferrão

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Passos chumba TSU para chumbar Marcelo

Bernardo Ferrão

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Em 2012 o então Presidente Cavaco Silva foi essencial para alcançar um importante acordo de Concertação Social. Na altura não foi fácil para a UGT deixar a assinatura num acordo que trazia medidas duríssimas: os despedimentos eram facilitados, o subsídio de desemprego reduzido, apareciam os bancos de horas e cortavam-se férias e feriados. A troika estava em Portugal e o clima social e político, como todos nos lembramos, não podia estar mais crispado. Ainda assim, com um intenso e reconhecido trabalho de bastidores do então chefe de Estado, o acordo foi possível e acabou assinado em janeiro desse ano.

Marcelo não gosta da comparação. E percebe-se porquê. A novela da TSU – resultante de um acordo inviável - não é só uma derrota para António Costa. É também um falhanço para Belém. Marcelo, que defende a medida e se esforçou por fazê-la passar, e apressadamente, acabou isolado...com o Governo. Se o chumbo das esquerdas era esperado, o do PSD foi calculado. Passos viu na TSU uma brecha para matar dois coelhos: fragilizou o Governo “autossustentável” e de caminho impôs uma derrota a Marcelo. Cola Belém a um acordo atabalhoado e habilidoso que, com aquelas premissas, nunca poderia ser cumprido – as esquerdas avisaram. Costa sabia-o desde o início. E Marcelo também. Aliás, todo este acordo tem muito pouco de concertação. É verdade que houve negociação com os parceiros mas o Governo, impondo regras e valores, já trazia tudo decidido.

O salário mínimo era para aumentar. É a chamada Concertação por decreto. Com a posição que assumiu, Passos – mesmo abdicando da sua coerência e abrindo uma guerra com os patrões – ganhou pontos no partido. É preciso perceber que nesta altura, o líder social-democrata está quase exclusivamente dedicado à frente interna. Precisa de se religitimar dentro do partido e, mesmo que alguns vejam nesta atitude uma “birra”, a verdade é que se Passos salvasse o Governo ficaria numa situação insustentável. Se o seu objetivo é mesmo chegar às legislativas, não tinha outro caminho.

O leitor pergunta: e as autárquicas? Pois, as tais autárquicas que não vão ser fáceis para o PSD e que segundo Marcelo iam marcar um novo ciclo político. Não sei se repararam, mas o Presidente deixou cair essa teoria. Ao dizer na SIC que o Governo e a oposição “devem durar uma legislatura”, Marcelo apagou o cenário antes traçado. E porquê? O país inteiro já percebeu que entre o Presidente e Passos Coelho há um bloco de gelo. Mas Marcelo corria um risco ao fazer oposição ao PSD a partir de Belém – e já nem falo da colagem excessiva ao Governo. Ao deixar tão óbvia a sua discordância com o líder do PSD, o Presidente estava tornar-se num cavalo de batalha para os desavindos da liderança social-democrata, só que a novela da TSU mostrou-lhe como podia ficar encurralado.

Com Passos a virar o jogo e a crescer dentro de casa, Marcelo percebeu que a morte anunciada do “passismo” é por enquanto claramente exagerada. O ano que agora começou vai ser de enormes tensões e a TSU mostra como a geringonça pode facilmente entrar num caminho de bloqueios. Percebendo tudo isto, Marcelo mudou a agulha e diz agora que a oposição deve durar a legislatura (e até já admite outro Governo se o de Costa falhar: “hoje é o de Costa, amanha é o de Passos”). Assim como assim, mais vale jogar pelo seguro. Não vá o diabo tecê-las.

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