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João Ferreira e a história de um desafio

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Esta quinta-feira à noite fui desafiado diretamente pelo eurodeputado comunista, João Ferreira, a provar, recorrendo ao arquivo, que os comunistas tivessem alguma vez pedido a demissão de ministros. Ferreira regia a um comentário meu no Jornal da Noite onde estranhei o silêncio do PCP e do Bloco no caso de Mário Centeno. Mas mais do que questionar o silêncio, lembrei que noutros casos, com outros governos, as esquerdas foram as primeiras a reclamar a saída de ministros que enfrentavam crises.

Antes de responder ao desafio, importa deixar uma declaração de interesses. Não tenho, nem nunca tive, qualquer interesse ou intenção de ver o PCP ou o BE a pedir a saída deste ou de qualquer outro ministro. Tal como também não é meu objetivo ver Mário Centeno demitido – essa é matéria da exclusiva competência do Primeiro-ministro. Limitei-me, num espaço de opinião, a constatar o óbvio: no passado, e em casos muito semelhantes, comunistas e bloquistas nunca deixariam passar um episódio destes sem questionar a continuidade do governante.

Vamos ao desafio.

É verdade que o PCP é muito institucional e historicamente nunca foi muito explícito em pedidos de demissão. Aliás por norma não costuma exigir saídas individuais de membros do Governo, prefere apontar ao coletivo, ao Executivo no seu todo. Com os Presidentes da República, por exemplo, os comunistas só interromperam a “regra” de não questionar os seus mandatos, no segundo termo de Cavaco Silva. Mas não sejamos hipócritas. Uma coisa é o que o PCP defende nos seus manuais, outra bem diferente é que o que sai do calor do debate político. E foi aí que João Ferreira errou. Não basta defender o que está escrito na cartilha, é preciso ouvir o que os seus camaradas disseram e exigiram no passado.

Uma pesquisa rápida no “Google” com a frase “PCP pede demissão” mostra-nos como a tese de Ferreira cai por terra. Mas isso para o eurodeputado não chega, como aliás respondeu ao centrista Adolfo Mesquita Nunes que o confrontou com vários títulos de pedidos de demissão. Ferreira queria que lhe mostrássemos os registos, ao vivo e cores, do nosso arquivo. Foi o que fizemos e é o que está na reportagem.

Dirão que nunca há um pedido direto de demissão. Ou então, como defendeu João Ferreira, que não existe um “comunicado” que expresse a vontade do coletivo nesse sentido. Mas então de que valem as palavras dos deputados do partido? Do líder

parlamentar? Do secretário-geral? Não estão eles a falar em nome do PCP? Deixemos-mos de brincadeiras: dizer, em plena crise, que um ministro “não tem condições para continuar” não é o mesmo que questionar-lhe o cargo? Não é apontar-lhe a saída? Ou será que o PCP considera que as sentenças que foi deixando no passado são “factos alternativos”?

Quando João Oliveira afirmou sobre Nuno Crato que “para lá de exigir a demissão do ministro da Educação, nós temos vindo a exigir a demissão do Governo”, queria dizer o quê?

Quando Bernardino Soares defendeu que Maria Luís Albuquerque “devia terminar o seu mandato porque não tem condições para continuar”, queria dizer o quê?

Quando Miguel Tiago foi à RTP explicar que “não devemos hesitar” porque Miguel Relvas “não tem as condições para fazer parte de um Governo”, queria dizer o quê?

Não é por não haver “comunicados” a exigir demissões que vamos fingir que não ouvimos o que as partes do coletivo vão dizendo. João Ferreira atravessou-se por algo indefensável. Antes de exigir rigor aos outros, era importante que o mostrasse quando desafia. Um pedido de demissão é um pedido de demissão e o arquivo regista-os todos. O eurodeputado e candidato à CML é um dos mais importantes e preparados ativos do partido, mas com este episódio mostrou uma fragilidade que parece estar a tomar conta dos comunistas.

Mais do que saber se fizeram ou não pedidos de demissão no passado, o que realmente fez abanar a estrutura do PCP foi ter sido metido no mesmo saco do Bloco de Esquerda. Mas esse é um problema, ou melhor um incómodo, que tem de ser resolvido dentro de casa. Os jornalistas e comentadores limitam-se a constatar o que mudou no último ano – e mudou muito! O resto é arquivo. Maldito arquivo!

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