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E que tal um pedido de desculpas?

Quando, no início de junho, fiz uma entrevista ao primeiro-ministro na qual mostrava em grafismo que o nível de austeridade em Portugal continuava a ser praticamente igual ao do Governo PDS-CDS-PP, embora com algumas medidas de substituição, levantou-se um coro de protestos a dizer que o jornalista estava a deturpar a realidade. Esses protestos não eram apenas de discordância intelectual, eram acompanhados de violentas acusações e desconsiderações pessoais.

Na formulação das perguntas a António Costa, tive o cuidado de definir a austeridade como o conjunto de medidas de política financeira destinadas a reduzir o défice público através do aumento de receitas e do corte de despesas do Estado, independentemente de cada uma das medidas considerada isoladamente.

Tive o cuidado de referir que, por exemplo, os cortes de salários pensões e subsídios tinham sido substituídos por um aumento de impostos indiretos, nomeadamente sobre combustíveis, automóvel e selo dos contratos, com efeito equivalente.

António Costa respondeu que eu estava errado, porque “a austeridade é o que as pessoas sentem no bolso”. E que estava mesmo a acabar com a austeridade porque tinha acabado com os cortes de salários, pensões e subsídios e com a sobretaxa de IRS. Isso sim, era austeridade e estava praticamente acabada.

Afinal, o próprio Governo vem desmentir esta interpretação redutora do conceito e revelar que o conceito de austeridade que segue é mesmo o mais lato, aquele que eu usei na entrevista ao primeiro-ministro.

A primeira admissão dessa contradição foi dada pelo deputado socialista João Galamba, na quinta-feira passada, em direto no programa Opinião Pública da SIC Notícias.

Nesse programa sobre consequências das cativações orçamentais decididas pelo Ministro das Finanças, eu tinha dito que não eram as cativações e os cortes que justificavam um roubo no quartel militar de Tancos. Isso só poderia dever-se a incompetência de quem guardava o espaço.

Pouco depois, em direto a partir do Parlamento, João Galamba dizia que eu tinha razão. De facto, a austeridade em vigor não justifica que haja roubos de armas em instalações militares nem descoordenações entre forças de proteção civil durante incêndios.

Esta quarta-feira, é o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares quem vem dizer em entrevista ao Diário de Notícias que “a austeridade presente e passada não é a causa dos últimos acontecimentos”. E tem razão, não é.

Mas afinal, Pedro Nuno Santos admite que há austeridade no presente?

Este Governo está a fazer austeridade?

Ai sim?

Pela boca morre o peixe.

Que por razões de taticismo partidário o Governo diga uma coisa numa semana e o seu contrário na semana seguinte, eu até consigo perceber. Faz parte da natureza da luta política.

Mas que as vozes do dono, mais papistas que o papa, que enxameiam as redes sociais e os comentários de certos espaços alegadamente informativos, andem a queimar impunemente o jornalismo independente, isso a sociedade não deve aceitar.

Que tal retratarem-se e apresentarem um pedido de desculpas?

Têm agora uma boa oportunidade.

Conseguirão ser capazes desse gesto de decência, pelo menos uma vez na vida?

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