Opinião

O clube de amigos de António Costa

Não me parece o melhor princípio político, mas percebo que António Costa queira ter junto de si, sobretudo em tempos difíceis, os mais próximos. Os homens de confiança pessoal e política. Em plena tempestade, o primeiro-ministro chamou dois amigos de longa data, ex-colegas da Faculdade de Direito, Eduardo Cabrita e Pedro Siza Vieira. E eles não disseram que não.

Como os sucessivos governos têm mostrado, a pasta dos fogos e das polícias é das mais duras e perigosas. Cabrita foi adjunto da Administração Interna liderada por Costa, tem peso político, fora e dentro do PS, e uma visão global do Governo. No lado menos, tem um senão no estilo por vezes truculento que terá, obrigatoriamente, de moderar. Depois da tragédia, os jogos políticos não são de todo aconselháveis nas frentes de fogo. Não sendo uma escolha óbvia, Cabrita traz uma mais-valia: permite o controlo direto de Costa num Ministério que está no olho do furacão. Ou, se preferirem, debaixo do olho de Belém.

A outra escolha recaiu sobre Pedro Siza Vieira. O até agora sócio da Linklaters, uma multinacional de advocacia, já disse ao Expresso que “gosta muito” do “amigo” e, não sendo político – deixou de ser militante do PS nos anos 90 -, já fez saber que gosta da política. Quem o conhece de perto, traça-lhe um perfil altamente profissional e de grande inteligência. Jorge Coelho descreveu-o como “um dos melhores advogados do país.”

Siza Viera entra para um Governo com quem já trabalhou. A Linklaters foi a escolhida por António Costa para estudar a solução para o crédito malparado. A mesma Linklaters que em 2006, quando Costa era MAI, fez a assessoria jurídica do SIRESP, voltou agora a ser chamada para analisar o contrato que inclui a polémica cláusula que salva a operadora de incorrer em penalizações por incumprimento – e foram tantas as falhas do SIRESP. A mesma Linklaters que assessorou os privados (Humberto Pedrosa) na privatização da TAP. Um processo que tinha, do outro lado, a representar o Estado, outro amigo de António Costa: Diogo Lacerda Machado, que entretanto foi nomeado pelo mesmo Estado para a administração da mesma TAP.

Tudo o que atrás escrevi são factos. E não tenciono com eles levantar qualquer suspeita. Não é por serem “amigos” de António Costa e por terem sido chamados ou para o Governo ou para representarem o Estado em negócios, que merecem menor respeito ou um olhar de soslaio. São, até prova em contrário, profissionais de primeira linha e os Governos, tão atulhados de boys partidários, precisam de gente boa e profissional. Mais: o que se passa no Governo do PS, já se passou noutros governos socialistas e de direita.

Como atrás escrevi, não critico um primeiro-ministro que se rodeia dos seus mais próximos. A questão não está aí. Está, apenas e só, quando a coisa corre mal. Não só se queima o “amigo”, e os próximos que vierem, como quem os chamou. Veja-se o caso de Lacerda Machado. O problema não estava no facto de estar a negociar em nome do Estado – se é um dos melhores ainda bem que foi escolhido -, o problema foi estar a fazê-lo sem qualquer ligação contratual. E pior foi o primeiro-ministro achar que fazer um contrato era desnecessário e uma perda de dinheiro.

A impunidade intoxica. A Democracia só respira, a plenos pulmões, quando há transparência. No caso Lacerda Machado, a teimosia do primeiro-ministro deixou-nos desconfiados. Sendo António Costa tão seu amigo devia ter sido o primeiro a querer defendê-lo (e já agora o Estado), impondo desde o início que tudo fosse feito às claras e com contrato. Era um favor que fazia ao país, a Lacerda Machado e a todos os amigos que vamos conhecendo. Agora, sempre que nos dizem que o primeiro-ministro chamou mais um amigo para o Governo ou para negociar em nome do Estado, encolhemos os ombros: lá vai mais um para o clube de António Costa.

Ou como diz a canção, traz um amigo também!