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Anselmo Crespo

A montanha pariu a banca

Anselmo Crespo

Anselmo Crespo

Editor de Política SIC

Se um pequeno banco, de uma pequena economia, de um pequeno país, quiser ser grande, o que tem que fazer? Tem que olhar para os grandes bancos, de grandes economias e de grandes países e pensar fora da caixa. Foi o que fizeram os bancos portugueses. O raciocínio estava aparentemente correto. Mas quando um pequeno banco, de uma pequena economia, de um pequeno país se agiganta, corre o risco de se tornar ganancioso. E a ganância mata.

Durante anos, a banca portuguesa foi considerada das mais sólidas, das mais eficientes e das mais inovadoras da Europa. Portugal era quase um case study. Os gestores dos bancos portugueses eram tão bons, que chegámos a exportar alguns. O poder político desfazia-se em elogios aos bancos portugueses e os bancos portugueses retribuíam das mais variadas formas. Financiavam os partidos, financiavam as obras que esses partidos tinham prometido em campanha eleitoral e ainda arranjavam uns empregos na banca para os membros desses partidos. O sistema funcionava. A política não vivia sem a banca e a banca não vivia sem a política.

Os anos foram passando e os bancos, que começaram por ser pequenos, estavam cada vez maiores. Os mais influentes compraram os menos influentes. Os amigos juntaram-se. E os inimigos tentavam comprar-se de forma hostil, numa demonstração de poder que a política classificava como sendo "o mercado a funcionar". E era, de facto, o mercado a funcionar.

O problema é que, como diz um grande amigo, o mercado é o ponto de encontro entre a ganância e o medo. Durante anos, os bancos nunca tiveram medo, apenas ganância. Afinal, eles eram o alfa e o ómega da economia de um país. Os governos só tinham obra para mostrar, se os bancos emprestassem dinheiro. As empresas só investiam, se os bancos as financiassem. As famílias só compravam casa, carro e só iam de férias, se os bancos emprestassem. Nada funcionava na economia de um país sem a ajuda dos bancos e, sendo assim, Portugal tornou-se bancodependente.

Em 2006, começaram a aparecer os primeiros sintomas de doença na banca portuguesa. O BCP, que já era o maior banco privado português, tornou-se ainda mais ganancioso (sim, a ganância não tem limites) e quis comprar o BPI. A operação não se limitou a falhar, foi uma derrota humilhante para Paulo

Teixeira Pinto, o delfim que Jardim Gonçalves tinha escolhido para lhe suceder à frente do BCP. Começou uma guerra pelo poder dentro do banco, que foi aquecendo com o aproximar do verão. As assembleias gerais eram uma espécie de guerra de trincheiras, em que os acionistas escolhiam o lado da barricada que achavam que sairia vencedor no final. Ninguém ganhou. Perderam todos, mas perdeu sobretudo o banco que anda até hoje a apanhar os cacos desta guerra e, já agora, de anos de uma gestão duvidosa que quase o levou à falência.

Lembro-me bem deste período porque o acompanhei de perto. Na altura era impensável dizer que um banco estava em dificuldades ou à beira da falência. Porquê? Porque isso provocava medo ao mercado e o mercado, com a ganância convive bem, com o medo é que não. A guerra do BCP não deixou apenas feridas dentro do banco, deixou-as também em todo o sistema financeiro português. O país começou a olhar com mais desconfiança para os bancos. A política não, continuou como se nada fosse. Afinal a guerra do BCP tornou o BES ainda mais forte, o BPI continuou firme e hirto e há sempre a Caixa Geral de Depósitos, para qualquer eventualidade.

A crise mundial de 2008, foi a estocada final no sistema financeiro português. Não só pelo impacto direto que teve nos bancos, mas sobretudo porque ela veio levantar o tapete e pôr a descoberto anos de decisões discutíveis, erradas, danosas, ruinosas, é escolher o melhor adjetivo. Os bancos portugueses ficaram vulneráveis. A ganância deu lugar ao medo, o medo deu lugar ao pânico e o pânico, dos bancos e da política, atirou quatro bancos para a falência, no espaço de 8 anos. E alguns já não eram pequenos.

Hoje é bastante claro que, em Portugal, rebentou uma bolha. A bolha em que durante décadas viveram banqueiros, políticos, empresários e até consumidores compulsivos. Dito isto, o que sobra? Sobra a falência. Dos bancos, das empresas, das famílias, do Estado. Sobra a fatura da gestão, muitas vezes danosa dos bancos, sobram anos, décadas, de uma economia, como a portuguesa, que nunca passou de um crescimento medíocre. A montanha pariu a banca. E a banca voltou a ser pequena outra vez.

Anselmo Crespo
Editor de Política da SIC

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