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Anselmo Crespo

Irmã Aurora e a professora que dormia

Anselmo Crespo

Anselmo Crespo

Editor de Política SIC

Chamava-se Irmã Aurora e era professora de matemática há tantos anos que, só na minha família, eu era já a terceira geração que lhe passava pelas mãos. Velhinha de rosto muito enrugado, óculos grossos, não me lembro se algum dia a vi sorrir. Nunca levantava a voz, nem precisava. Eu não gostava de matemática e, por arrasto, também não gostava dela. Mas isso era-lhe indiferente. Não era o primeiro e não fui seguramente o último. "Roubou-me" muitas horas de almoço a jogar à bola, para estar numa sala a repetir exercícios até que eu os percebesse. Desisti várias vezes da matemática mas a Irmã Aurora nunca desistiu de mim. Claramente não me transformou numa barra a matemática, mas isso é responsabilidade minha, não dela.

Exigência. Foi este um dos fatores que mais pesou na decisão dos meus pais quando me inscreveram num colégio particular logo na primeira classe, em vez da escola pública da minha área de residência. As sucessivas histórias de uma professora primária que ora adormecia dentro da sala de aula ora faltava por doença, assustavam quem queria para o filho a melhor educação possível e não se importava de, para isso, fazer um enorme esforço financeiro para o garantir. No colégio os professores não adormeciam, raramente faltavam e, quando faltavam, essas horas eram compensadas com tempo de estudo. No colégio pagava-se bom dinheiro e o cheque que os pais passavam todos os meses dava-lhes uma sensação de dever cumprido.

Tudo muda quando se sai do ensino particular para o público. Mudam os professores, mudam os colegas, muda o ambiente. A primeira coisa que se descobre é que não há apenas bons professores no ensino particular. Também os há na escola pública. E alguns são mesmo muito bons. Como alguns, no particular, são mesmo muito maus. Há de tudo como na farmácia. Descobre-se também que, entre colegas, aquilo a que hoje se chama bullying, tanto existe no público como no privado. Depois, há o ambiente escolar. E esse é, seguramente, mais democrático numa escola pública do que na privada.

Aprendi nos dois lados. Encontrei virtudes e defeitos dos dois lados. Cresci nos dois lados. E se tenho esta história para contar, se sou o que sou hoje, foi porque os meus pais puderam escolher. Essa escolha teve um preço elevado. Durante nove anos de ensino privado, o Estado não financiou com um cêntimo a minha educação. Apesar de a alternativa ser uma professora que adormecia e faltava consecutivamente às aulas. Não tinha que o fazer mas tinha, pelo menos, que garantir a mim e a todos os outros, uma escola pública digna, coisa que, ainda hoje, nem sempre consegue.

A atual discussão em torno dos contratos de associação está, como quase todas as discussões em Portugal, contaminada por questões ideológicas e por interesses. Aos que dizem mal de tudo o que é privado só porque sim, juntam-se os que dizem mal de tudo o que é público, só porque não e há ainda os que se juntam à "festa" porque têm negócios a defender (colégios neste caso). Como se isto não bastasse, temos um Ministro da Educação que pede meças aos antecessores em matéria de inabilidade política. A propósito, onde se escondeu Tiago Brandão Rodrigues? Estará atrás do pavilhão?

A questão é muito simples e não devia suscitar dúvidas a ninguém. Não faz sentido o Estado pagar a privados para fazerem o mesmo que a escola pública está a fazer. Se um colégio privado quer abrir numa zona onde há suficiente oferta da escola pública só tem que viver com essa decisão e não esperar que o Estado o financie. Coisa diferente é o Estado pedir a um privado que ajude a suprir a oferta da escola pública e pagar-lhe por isso. É tão simples, que não percebo sequer porque há uma polémica.

A discussão mais importante, essa continua por fazer. A da qualidade do ensino, dos professores, dos alunos, dos planos curriculares, da exigência em vez do facilitismo do "passam todos", do "isso de saber escrever português é sobrevalorizado" ou "a matemática não é precisa para nada". Essa discussão, quando for bem feita, pode mudar definitivamente a escola pública.

A irmã Aurora sabia que eu não gostava de matemática, mas nunca me deixou passar sem saber, e isso faz toda a diferença.

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