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Anselmo Crespo

O Costa bom e o Costa mau

Anselmo Crespo

Anselmo Crespo

Editor de Política SIC

Não se assustem. Não é o que estão a pensar. O Costa bom e o Costa mau são uma e a mesma pessoa. Quem o viu e ouviu este fim de semana no Congresso do PS não pode chegar a outra conclusão. Ele elogia e critica, defende e ataca, brinca e faz ar sério, responde e pergunta, ele consegue ser fofinho e um brutamontes, tudo isto no espaço de segundos. Ele é, no fundo, como todos nós. Tem um lado bom e um lado negro da força e isso é uma das coisas que faz dele, como todos os defeitos e erros que possa cometer, um bom político.

O discurso de encerramento é paradigmático. O Costa bom percebeu que Tiago Brandão Rodrigues estava a precisar de colinho. À falta de jeito para a política juntam-se as decisões equívocas, as medíocres explicações e agora, não lhe faltava mais nada, ainda tem os colégios privados à perna. Literalmente. Logo agora que tem razão. O Costa bom percebeu que não bastava uma palmada nas costas do ministro para lhe dar ânimo. Era preciso mais que isso. Decidiu dar-lhe um congresso. Elogiou-lhe a coragem, inscreveu-o nos manuais de história política e os militantes fizeram o resto. A Brandão Rodrigues só faltou verter uma lágrima. Levantou-se duas ou três vezes para agradecer tamanho carinho. Depois saiu pela porta dos fundos não fosse algum jornalista importuná-lo com perguntas. O Costa mau atirou-se aos colégios, acusou-os de serem um lobby forte, cerrou os dentes e garantiu que o Governo não tem medo de os enfrentar.

O Costa bom elogiou o Presidente da República, agradeceu-lhe a ajuda que deu quando foi a Berlim sensibilizar Angela Merkel para a injustiça de aplicar sanções a Portugal e ainda teve capacidade para brincar com o otimismo irritante que Marcelo lhe atribuiu. Depois partiu a loiça toda. Otimismo? Não é uma questão de ser otimista é uma questão de ter as políticas certas. Consensos? Já os tenho com a esquerda, não preciso de direita para nada.

O Costa bom diz que é difícil ser-se socialista na União Europeia mas é impossível ser-se socialista fora dela. Defende uma postura leal e construtiva na Europa e recusa embarcar em bravatas. O Costa mau atira-se que nem um leão a esta União Europeia, mais preocupada com sanções aos estados membros por causa de duas décimas de défice do que com os milhares que morrem no mediterrâneo todas as semanas. Carrega nas tintas e adjetiva esta Europa de injusta, absurda e imoral. Se a França é a França, como disse Jean Claude Juncker, o Costa mau lembra que Portugal é Portugal, que somos iguais entre iguais e avisa que não aceita estar numa posição de submissão.

O Costa bom reconhece que fazer oposição não é ser menos patriota. O Costa mau aponta o dedo ao nariz dessa oposição, acusa-a de neoliberalismo, de não defender os interesse de Portugal lá fora e de enganar o país.

O poder. Esse grande afrodisíaco. Permite tudo, apaga tudo, torna tudo mais fácil. O congresso do PS teve uma voz crítica no palco e uma na plateia. As outras ficaram em casa a dar entrevistas. Não se afronta quem tem o poder porque ninguém sabe o dia de amanhã. Afinal, o Costa bom está na crista da onda. Faz maratonas e não se contenta com corridas de 100 metros. Vê longe e não se ocupa da espuma dos dias. Tem uma visão e não precisa dos óculos dos outros para ver melhor. O Costa bom existe e é bom que seja ele a governar o país. Porque o Costa mau também lá está. Mas ninguém o vê. Muito menos a família socialista. Há lugares no Estado para ocupar (e com a limpeza que está a ser feita, pode ser que sobre algum), eleições autárquicas à porta (quem quer ser presidente da câmara? E vereador?), e se tudo isto correr bem, quem sabe não há mais gente a chegar a deputado... Ou a secretário de estado. Ou a ministro. É muito diferente dos governos anteriores? Não, é exactamente igual.

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