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António José Teixeira

Tempos azedos numa Europa impotente

Os tempos vão azedos. Muita campanha política descolada da realidade. Muita irracionalidade e teimosia em terreno cruel. Muita suspeição sem fim à vista. Inconsequência permanente. Dias que passam em desamparo. Podia até ser grito de libertação da sociedade civil (onde já vai a expressão...), mas a teia burocrática e a desconfiança no cidadão não o permitem. Portugal está apertado por espartilhos vários, estagnado por pactos orçamentais e dívidas avassaladoras.

Esta semana, no meio do burburinho, várias vozes chamaram a atenção para a estagnação a que nos estamos perigosamente a render. A Europa vive uma ameaça deflacionista e não se vêem sinais que a contrariem ou combatem. Há um designado plano Juncker, cujos detalhes ainda não são suficientemente conhecidos e que tem merecido muitas reservas. Um plano com um nome desacreditado logo na primeira semana de presidência da Comissão Europeia pelo escândalo LuxLeaks, um claro exemplo de como se destrói a economia europeia com predação fiscal.

A Europa está velha e não tem remédio demográfico fácil nem sabe lidar com a imigração. Não resolveu o problema das dívidas soberanas. Perdeu competitividade na globalização. Não aposta suficientemente na inovação. Investe pouco, cria pouco emprego e mantém um desemprego elevado. Como se isto não bastasse, tudo se conjuga com desigualdades cada vez mais pronunciadas e com um declínio da mobilidade social. Pior, perdeu alma, convicção, projecto.

Jorge Sampaio disse ontem na Gulbenkian que «não estamos a conseguir garantir igualdade de oportunidades às gerações mais jovens nem sequer a mostrar-lhes que o sucesso não depende de alguém ter nascido rico ou em privilégio, mas sim do seu próprio mérito». A desigualdade dos mais jovens, como a pobreza infantil, não são chagas apenas do presente, terão reflexos cruéis no futuro. Comprometer o futuro é o que estamos a fazer com aquilo que Sampaio descreve como a «aplicação severa e drástica de medidas de austeridade centradas no curto prazo e unicamente movidas pelo intuito da redução de défices». 

Há uma ideia muito contabilística e estática da economia, uma ideia acanhada de que a economia só pode gastar o que tem. Ignora-se, como disse ontem José Pacheco Pereira numa conferência da SIC Notícias, que a economia é, antes de tudo, sociedade, pessoas. Uma sociedade sem dinâmica, sem elevador social, não funciona. O mesmo é dizer que uma economia sem dinâmica social paralisa, estagna. Para a Europa crescer não pode apenas ficar à espera que aconteça, terá de fazer por isso. Juncker bem falava em flexibilizar o cumprimento das obrigações de estabilidade, em políticas expansionistas, investimento público e privado. Há poucos dias, Bruxelas chamou a atenção de sete países, entre os quais Portugal, para a necessidade de cumprirem os objectivos traçados para o défice de 2015. 

As contracções orçamentais não são boas notícias para o abanão que falta. Na mesma conferência, Pedro Passos Coelho recordou – e bem – os erros de investimento público dos últimos 20 anos, nomeadamente «as parcerias público-privadas sem racionalidade no objecto e na negociação, a criação de privilégios para uns poucos e encargos para os outros todos». Os erros do passado não devem paralisar-nos. Mas é isso que está acontecer. Álvaro Santos Pereira acaba de editar um livro em que conta algumas memórias da sua passagem pelo Governo. Sobre a crise não tem dúvidas: «Teremos de continuar a investir na educação, na inovação e na formação profissional virada para o contexto do trabalho. Ao mesmo tempo, e para reanimarmos a economia e atrairmos mais investimento, é fundamental baixarmos os impostos e cortarmos a burocracia do Estado central e local.» 

O ex-ministro de Passos Coelho reafirma que a crise da dívida europeia só será resolvida com um reescalonamento a longo prazo da dívida dos países mais endividados. Algo que exige uma solução europeia, mas que dificilmente terá luz verde alemã. É este o estado político da Europa. Sem horizonte e ambição, velha, instalada, impotente, subjugada. Cedeu a nacionalismos e populismos, enfraqueceu a democracia. Uma Europa à espera… de milagre. Ou de nova tempestade. Por cá, discutimos justiça, prisões e prisioneiros, fazemos inquéritos a banqueiros e seus cúmplices, muito palavreado inconsequente ao mesmo tempo que uns quantos gastam o verbo numa campanha eleitoral interminável… Tudo demasiado mau para ser verdade.

 

 

 


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