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António José Teixeira

Muitos pés de barro, decadentes e desacreditados

Os problemas políticos não podem reduzir-se a questões morais ou de carácter. Mas as questões morais e de carácter não são negligenciáveis, sobretudo quando se revelam contraditórias com a acção política. Não se diga que são os efeitos perversos da mediatização da política até porque um desses efeitos é a relativização dos procedimentos e das condutas. A crescente personalização da política colocou uma pressão muito forte nos líderes. Perderam relevância as ideias e os programas, tantas e tantas vezes atraiçoados, e concentraram-se todas as expectativas nos protagonistas. Bem ou mal, é neste mundo que vivemos, é esta a nossa democracia descontente. Sujeito a um escrutínio (legítimo e necessário) mais apertado, o primeiro-ministro confessou que não é «um homem perfeito». Ainda bem. Livrem-nos deles!

A necessidade de assumir a sua imperfeição só é compreensível porque é costumeira a tentativa de construção do homem sem mácula. Não é como os outros, não se liga a interesses, não favorece negócios, não trafica influências, não vive fora das suas possibilidades... Um homem diferente, frio, determinado, intransigente, de grande exigência moral. Também um chamado pragmático, que foi construindo o seu percurso entre a política e os negócios nem sempre de forma muito clara. Um padrão que se vai tornando comum na estrita medida em que os protagonistas se vulgarizam.

O problema de Pedro Passos Coelho com a segurança social ou a fiscalidade não é tanto o das suas faltas, atrasos ou omissões. O problema maior, o que o torna um problema político, são as explicações insuficientes e as justificações extraordinárias. Diremos que errar é humano e que não somos perfeitos, o que até o tornaria um líder mais próximo dos seus eleitores. Mas não reconhecer o erro de forma clara, desculpar-se com faltas de notificação, vitimizar-se, quando se move uma perseguição feroz a todos os pequenos e médios infractores, vai além da imperfeição... Quando se têm as mais altas responsabilidades perdem-se autoridade e credibilidade. Talvez porque o esclarecimento crie embaraços, empurra-se tudo para o terreno eleitoral a muitos meses de um combate político que dispensaria tamanha irresponsabilidade.

O país foi mergulhado numa campanha eleitoral prematura. Governo e oposições não pensam noutra coisa. A maioria só tem palavras para os progressos conseguidos. Esquece o muito que há para fazer e a necessidade de centrar o país em objectivos vitais de criação de riqueza. É como se já tivessemos ultrapassado a crise que nos atravessa e que atravessa a Europa. A crise não acabou. Tem de ser combatida com inteligência e vigor. A satisfação que por aí vai é má conselheira. Também o principal partido da oposição anda confundido com o caminho a percorrer. Cheio de dúvidas, receoso de arriscar, perdido no discurso, oscila entre o silêncio e a cavalgada do soundbite do dia. Ninguém parece interessado em centrar o país na crueza da realidade.

Preocupado com o desencanto que percorre a Europa, Jean-Claude Juncker deu uma entrevista ao diário espanhol El País. Aí revela uma consciência razoável das dificuldades: «Estamos no meio da crise», a recuperação «é frágil» e a integração europeia «está ameaçada». Juncker tem aquele jeito ambivalente para estar dentro e estar fora, critica como se não tivesse grandes responsabilidades no desencanto, mas também tem a lucidez de por o dedo em algumas feridas. O desemprego é a principal. 

Quando hoje reconhece que não se fez uma avaliação prévia do impacto social dos programas de ajustamento, isso não o desresponsabiliza de ter sido um dos orientadores desses programas. É interessante o que diz sobre a Grécia e a Alemanha. O Syriza, diz, faz um diagnóstico «certeiro» da situação, mas não dá respostas europeias. Começou a assumir responsabilidades, mas não vai poder cumprir boa parte das promessas. A Alemanha, sempre vista a liderar com mão de ferro a Europa, não é o país mais severo, segundo o presidente da Comissão Europeia. Mais severos são a Holanda, a Finlândia, a Eslováquia, a Áustria e os países bálticos. «Espanha e Portugal foram muito exigentes com a Grécia.» A Alemanha está a dar sinais de maior empenho europeu, outros escondem atrás dela os seus nacionalismos e os velhos ressentimentos. 

Juncker, como outros, está consciente dos impasses e do descrédito, mas passou a sua vida política a dizer uma coisa e a fazer o seu contrário. Nem sequer é um bom diplomata. O comportamento fiscal do Luxemburgo durante o seu consulado, que ficou a nu no registo do Luxleaks, é o paradigma Juncker nesta Europa. Condena-se, mas não se esclarece nem se investiga. Bloqueia-se, enquanto se esboçam explicações que ofendem a nossa inteligência. Muitos pés de barro, frágeis, decadentes e desacreditados. Assim vai esta Europa. E Portugal não foge à regra.

 

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