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António José Teixeira

Silêncios e ilusões em campanhas tristes

Silêncio. Estranho silêncio cúmplice quando palavras impensáveis se soltam, ameaçadoras, num governo de um país da União Europeia. O primeiro-ministro da Hungria Viktor Órban reclama «campos de internamento» para obrigar os imigrantes a trabalhar, enquanto acena com o regresso da pena de morte. Nascido no pós-guerra, com feridas bem vivas não apenas na memória, o projecto europeu assentou num compromisso de paz e liberdade, incompatível com quaisquer derivas totalitárias, xenófobas ou beligerantes.

No final dos anos 90, a União Europeia foi confrontada com uma coligação de governo na Áustria que incluía um pequeno partido ultranacionalista, liderado por Jorg Haider, que revelava simpatias nazis. Tanto bastou para se levantar uma onda de contestação pública, que conduziu à imposição de sanções europeias à Áustria. Antídoto que, gradualmente, acabou por diminuir aquele movimento ultranacionalista, mas que perdeu vigor e convicção. O caso húngaro é o melhor espelho da tolerância europeia com atentados graves à democracia e às liberdades. Não é apenas discurso xenófobo, é poder totalitário, ataque aos imigrantes, controlo da justiça e da comunicação social. Tudo perante os olhos e ouvidos de 27 parceiros europeus. Nem repúdio, nem condenação, quanto mais sanção. 


Faltam coragem e convicções democráticas fortes. Na semana em que passam 70 anos sobre a rendição nazi, que pôs fim à II Guerra Mundial na Europa, e se recorda a declaração Schuman, que deu alicerces de paz e solidariedade à reconstrução do Velho Continente, ouvir um primeiro-ministro clamar por «campos de internamento» para imigrantes dá que pensar e preocupar. Até porque Orbán é reincidente. Há anos que prossegue a sua marcha autoritária com atentados continuados às liberdades públicas.


A complacência e o silêncio europeus revelam como os valores fundadores se vão diluindo ao sabor das conveniências de circunstância. Talvez sejam coerentes com a ideia de que a tragédia do Mediterrâneo é uma questão policial. A memória e a solidez dos valores vão-se esboroando. Lá vai o tempo em que a mesma Europa tinha percebido que o que havia a fazer no norte de África e no Magreb seria contribuir para a sua estabilização política e económica. Incapaz de ser consequente com o seu próprio pensamento, reage acossada ao tumulto que não soube prevenir. Os milhares e milhares de desesperados que todas as semanas cruzam o Mediterrâneo podem ter sido vítimas de redes criminosas, mas nem por isso deixam de ser homens e mulheres perseguidos pela fome e pela guerra. 


Ignorar esta realidade e responder-lhe como caso de polícia apenas adia e agrava um problema que não pode deixar-nos indiferentes. Ao estado a que chegou não tem solução rápida e fácil, mas nem por isso deixa de merecer respostas inteligentes que salvaguardem a vida e o futuro de populações perseguidas por conflitos étnicos, religiosos e políticos. Lavar as mãos é cobardia. Combater desesperados é crime.


As pulsões extremistas voltaram a ganhar terreno e atrevimento, auxiliadas pela crise económica e por um populismo que transformou imigrantes e desempregados em parasitas, ameaças ao nosso bem-estar. A envelhecida Europa precisa de imigrantes. São eles a esperança de rejuvenescimento. Mas precisa de os integrar bem. Quanto mais os ostracizar, mais guetos e insegurança criará. Sem abertura ao Mundo não há futuro europeu. Não é apenas na Hungria que se testa a lucidez (porque é disso que se trata). Hoje, o Reino Unido escolhe os seus representantes, que talvez consigam chegar a uma solução de governo. 


Não se vislumbra uma solução política clara. São contingências da democracia, mas também o resultado de uma campanha recheada de ilusões. A ideia de uma grande potência global é uma delas. Há muito deixou de ter o poder e influência de outros tempos. E, talvez por isso, apesar do cosmopolitismo da praça londrina, mostra-se cada vez mais tentada ao isolacionismo. A imigração tornou-se a grande preocupação e a União Europeia um fantasma. Nem sequer o Reino parece unido, o Partido Nacionalista Escocês continua a desafiar a integridade britânica e o Partido da Independência tem demasiados traços xenófobos. Um e outro podem ter uma palavra a dizer no futuro do Reino Unido. Já lá vai a autossuficiência de conservadores e trabalhistas… Num tempo mais e mais perigoso e incerto, sobram sintomas doentios.

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