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António José Teixeira

Sob o cisma de Jesus

Quais linhas de orientação geral para a elaboração de programas eleitorais! Quais cartas de garantias! Quais convenções de confiança! Quais marchas nacionais! Portugal está agora sob o cisma de Jesus. Jesus, o treinador, bem entendido.

Já andávamos vergados às grandes celebrações sulistas de bicampeonatos e taças de Portugal. Já muitos portugueses, aqui e além-mar, tinham levantado toda a espécie de troféus. Da Inglaterra à Rússia, do México à Grécia, a lei do ludopédio luso ganhou uma força nunca vista. Ronaldo, o melhor jogador do mundo, falhou os títulos, mas não deixou fugir o Pichichi... O futebol é o reduto de resistência a todas as crises, o grande palco da vida, do jogo da vida, o maior espectáculo do mundo. 

Aí se expiam desaires e frustrações, aí se empolgam vontades. Arte, ilusão, magia, choro, raiva, traição, combate, circo, tudo se ganha e se perde na fogueira das paixões. Não são apenas paixões. São negócios de muitas artes e engenhos. Audácias demasiadas vezes criminosas. Digam o que disserem, andamos rendidos à maldição da bola. Até o FBI se abateu sobre as mafias do futebol. E nem o imperador Blatter resistiu.

É público e notório que, nos últimos dias, a grande dúvida do falatório público não era sobre quem poderá ganhar as eleições que Cavaco Silva ainda nem sequer marcou. Ou sobre quem o quer substituir em Belém. O grande cisma é o que iria fazer Jesus? Fica no Benfica? Vai para o estrangeiro? Ir para o FC Porto parecia fora de causa. Para o Sporting seria absurdo. Mas, como dizem os grandes filósofos do futebol, o que é mentira hoje é verdade amanhã. E assim é. Jesus, o sportinguista que levou tantas vezes o Benfica à vitória, vai agora fazer milagres para Alvalade. 

Jesus, o dissidente, cismou em multiplicar milhões e deixou muitos admiradores de cara à banda. Dizem que os profetas dificilmente fazem milagres na sua terra. Aliás, o biblico Jesus terá dito que nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra. Mas o nosso Jesus é outro. Descansem os sportinguistas. Também porque não é o amor que move as montanhas do futebol. São os milhões, sabe-se lá de onde, que fazem entrar e sair os feiticeiros do futebol.

De resto, o folhetim é a não perder. Muitas figuras e figurões, bancos, novos e velhos, bons e maus, acionistas de referência duvidosa, agentes com pouca magestade, heróis e vilões, homens mal falantes, empertigados, gratos e ingratos, esqueletos em muitos armários, e muitas contas a ajustar. Não há moral nesta história. É pura arte do jogo e do negócio. A lei de Jesus.

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