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Perfil

António José Teixeira

Tentar de novo para errar melhor

Elvira Fortunato não é uma oradora de verbo cativante, até por não estar habituada a grandes tribunas. Mais importante do que isso, é uma cientista rara, com provas dadas, com descobertas certificadas. O transístor de papel é um exemplo concreto do seu trabalho e da sua equipa da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Resultado também de um percurso de muitos anos da ciência e da universidade portuguesas. A retórica de Elvira Fortunato não está ao nível da cientista Elvira Fortunato, mas é suficiente para nos deixar alertas claros sobre alguns pontos críticos que tolhem o país.

No Dia de Portugal, a presidente das comemorações confrontou-nos com as ilações a tirar do óbvio. Digo óbvio porque ninguém se atreve, pelo menos em público, a negar o valor do conhecimento como motor de desenvolvimento. Agora, em campanha eleitoral, há mesmo um campeonato da propaganda da ciência e até uma tentativa revisionista do discurso de há poucos anos. Passam agora por «mito urbano» ou invenção dos media as posições do Governo sobre as vantagens da emigração. Foram vários os governantes a sublinhar as vantagens de sairmos da nossa «zona de conforto» e irmos «além das nossas fronteiras». Não foi por estas palavras que muitos engenheiros, médicos, enfermeiros, biólogos, economistas, químicos ou físicos se viram compelidos a procurar oportunidades fora das nossas fronteiras. Foi pela necessidade. Fosse por opção e não por obrigação e estaríamos a falar de competitividade, valorização...

Já se disse e redisse que é nas circunstâncias históricas mais difíceis que as nossas escolhas devem ser claras. Não perceber que a educação e a ciência eram, e são, as molas decisivas para a saída da crise e que deviam ser excepção aos cortes a eito demonstra a curta convicção no valor do conhecimento. Um dos paladinos da emigração foi mesmo um ministro que olhou para a universidade como mera repartição de passagem de diplomas. A falta de convicção no conhecimento deu como resultado uma

sangria financeira e humana no sistema científico. Fez-se uma avaliação pouco rigorosa, para não dizer manhosa, para justificar cortes de financiamento, redução de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento ou cativação de verbas (muitas vezes receitas próprias de que o orçamento do Estado se apropriava indevidamente). O desastre surge agora dissimulado por resultados excelentes de muitos cientistas portugueses, como se fossem possíveis sem muitos anos de tentativas e erros.

Cativar os jovens altamente qualificados é um dever. As palavras de Elvira Fortunato devem ser lidas como uma urgência. Talvez mesmo uma emergência. Ao contrário do que dizem muitos demagogos quando olham para as gerações mais novas, a maior herança que devemos acautelar não é a orçamental (mesmo que seja importante, e é), a maior riqueza que devemos transmitir é o conhecimento, a educação, o sentido crítico, a autonomia e a responsabilidade. São estes os combustíveis do progresso, fundamentais para ultrapassar todas as crises e incertezas. Depois de tudo o que nos aconteceu nos últimos anos, saibamos conservar os nossos jovens talentos. A recuperação económica não se fará sem maior qualificação.

Outro aspecto da intervenção de Elvira Fortunato que nos deve preocupar é o do envelhecimento do corpo docente das universidades. Os cortes orçamentais criaram hiatos geracionais, quebraram a renovação e colocaram em causa a transmissão de saberes. Extinguem-se vagas à medida em que muitos se reformam, não se abrem concursos... Os resultados desta cegueira não são imediatos. Estamos a tempo de os contrariar desde que haja lucidez e vontade.

Apostar na ciência e no conhecimento vai além do pragmatismo que desvaloriza a investigação fundamental e apenas se interessa pela investigação aplicada. Para se obterem resultados, para que haja sentido útil da ciência, vale a pena lembrar as palavras de Beckett: «Voltar a tentar. Errar de novo. Errar melhor.» Só assim não será hipócrita a homenagem a José Mariano Gago, físico e político consequente.

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