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António José Teixeira

De acordo em acordo até ao desastre final

Já não chegava o desgoverno de décadas, a Grécia prepara-se agora para sofrer a terceira penitência em cinco anos dos seus salvadores europeus. Dividida, humilhada, revoltada, agora resignada, travada pelo mêdo de males ainda maiores, não parece ter outro remédio senão vergar-se à protecção dos credores. Já muito dinheiro chegou e fugiu. Boa parte dos gregos não deram por ele. Mas sabem que, mesmo só o vendo fugir, é preciso que continue a correr. Ninguém sabe quando é que o deve se aproximará do haver. O que se sabe é que nem devedores nem credores querem que a circulação monetária se interrompa. É isso que os mantem ligados, mesmo que sem convicção.

Fora de horas, depois de muitas dissidências e uns petardos na rua, o Parlamento grego cumpriu o primeiro compromisso para com os credores. Já não há parceiros, Estados-membros, tão só credores e devedores. Pouco importam as contradições, se a oposição socorreu a situação, se a situação pareceu mais oposição, se o acordo aprovado é muito pior que a proposta reprovada, se os radicais se resignaram ou se os moderados se desacreditaram. Em Bruxelas e Atenas aprova-se aquilo em que não se acredita. Um engano, por unanimidade, em Bruxelas. Fel, por maioria, em Atenas. Esbanja-se perversidade. Solidariedade e empréstimo só com humilhação.

A Grécia tornou-se o saco de pancada europeu. Um saco sem fundo onde o dinheiro entra e sai sem nunca ganhar consistência. Bode expiatório da impotência, do desnorte e da irresolução europeias. Atenas é a imagem da decadência da outrora dominadora e sedutora Europa, como lhe chamou Eduardo Lourenço.

À medida que a Europa assume a disciplina alemã, tornando-se Europa alemã, mais a Grécia se torna uma nação pária, exemplo a não seguir, razão de sacifícios acrescidos. Contabilizam-se os euros derramados enquanto se ignora a eficácia da dieta. Já falhou duas vezes, falhará uma terceira. A cegueira é tão trágica como cruel. Como se fosse inevitável. A Grécia está intoxicada de euros. O euro tem sido a sua perdição. Pede

cada vez mais para dever cada vez mais. Se fosse possível, se ninguém notasse, se não precisássemos de fazer correr a moeda, fechava-se-lhe a porta. Mais tarde ou mais cedo, é isso que vai acontecer. E por iniciativa grega. A hipocrisia ditará que a Europa tudo fez para recuperar a Grécia, mas Atenas não quis...

Sejamos claros. A Europa terá mais a perder com a saída do que com a permanência da Grécia. Os sinais de fraqueza e fragmentação e os sentimentos de desconfiança e de ódio estão a fazer um caminho difícil de inverter. Já há demasiados naufragos e muros em construção, fronteiras de guerra nas nossas proximidades, terrorismo, ameaças imperiais... Quereremos acrescentar mais instabilidade?

Se alguém quiser ajudar a Grécia a recuperar, vale a pena concentrar-se no fundamental: reestruturação da dívida, reestabelecimento de canais de financiamento da economia, reorganização do Estado, nomeadamente da justiça e da fiscalidade. Racionalidade em vez de engano. Recuperação para pagar dívidas e evitar novos resgates. O euro não pode ser apenas uma vantagem alemã. Não queremos uma Europa alemã, mas uma Alemanha tão europeia como a Grécia.

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