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António José Teixeira

Cartazes e madrinhas da prostituição

Estamos em Agosto, é tempo de férias para muitos, fervilham festivais de tudo e mais alguma coisa, a torrente do futebol arrasta emoção e tolhe a razão, falta paciência para assuntos sérios, corre sem pressa a dita estação silly... Tudo isto para me desculpar por me deter na «crise dos cartazes», a magna questão política com que a campanha eleitoral nos ocupa. Não deve ser por acaso. Mesmo que os cartazes não valham metade da discussão que provocam, valem pelo menos como espelhos do nosso tempo. Há cartazes que gritam, cartazes que sorriem, que desviam atenções, que recriam a realidade, que a temperam ao gosto dos patrões, cartazes que dramatizam ou fantasiam, cartazes ainda que nos indignam e revoltam. De tudo um pouco, sobretudo de excesso. Faz parte.

Os cartazes que andam por aí pendurados revelam muito das intenções dos que dominam a situação e dos que se lhe opõem. Os excessos de optimismo contrastam com as cores negras da desgraça. Não faltam exemplos que ajudem a sublinhar êxito e esperança. Como abundam casos de fracasso e desespero. O mais extraordinário, ou não, talvez o mais revelador, é a descolagem da realidade, como se o país não chegasse para se mostrar a si próprio, como se fosse forçoso torcer o quotidiano para ganhar identidade. O cartaz é um bilhete-postal, um cromo, um cartão de visita, uma fotografia em que nos podemos rever.

O problema é que muitos dos cartazes que por aí andam têm pouco a ver connosco. Temos dificuldade, às vezes repulsa, em lidar com o nosso reflexo. Não é só pelo amadorismo. É pela cegueira no ponto de vista. Os que nos representam e os que nos querem representar bem se esforçam em compromissos e garantias. Não será por os cartazes mentirem que se afastam os eleitores. Já não se estranha e já se entranhou. É a descolagem da sociedade, o calculismo e o tacticismo, o culto do eufemismo. Embora engrosse o exército dos cépticos, o centrão revê-se mais na continuidade do que na mudança. E desse ponto de vista os aspirantes ao poder correm mais riscos quando comprometem a verosimilhança da sua mensagem.

A propaganda ganhou muito com as artes da publicidade. Mas vezes demais esqueceu a sua função política. Talvez porque quando a política não é clara não será clara a propaganda. Ter cartaz na política é melhor do que não o ter, mas a política reduzida à propaganda é seguramente apenas a dissimulação do vazio. A política de cartaz será necessária, mesmo que os entendidos digam que é pouco eficaz. Apenas isso justificará tanto cartaz por aí. Pior mesmo só a indiferença crescente. Já ouço o grande Millôr Fernandes a lembrar que a propaganda é «a madrinha da prostituição»...

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