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António José Teixeira

A morte da Europa

O naufrágio da humanidade espelhado naquele corpo de criança que deu à costa, como se fosse um detrito, arrepia. Mas não suficientemente. Um polícia recolheu-a nos braços como se a fosse embalar. Curvado, aquela criança pesou decerto na sua e em muitas consciências. Mas não suficientemente. Aquela criança fugia com outras crianças da Síria, passara pela Turquia rumo à Grécia. Corriam do inferno sírio, da barbárie à solta e da fome. Ninguém as viu e ouviu. Ninguém quis saber. Ninguém se importou. É duro olhar para aqueles corpos estendidos, inertes. Mas não suficientemente.

Há quem consiga ultrapassar o arame farpado. Há quem respire, mesmo que com dificuldade. Outros acumulam-se como gado junto ao caminho de ferro. Triagens prévias, carimbos nos braços, camiões onde dezenas morrem por asfixia. Agonia sem fim, continuada, repetida. Insuficiente para demover ditadores que se movimentam com grande à vontade na dita União Europeia. Ao desespero de muitos respondem com centenas de milhões de euros gastos a construir centenas de quilómetros de muros. Os adormecidos, negligentes e traidores da nomenclatura europeia refugiam-se na cobardia. Têm medo da responsabilidade, esqueceram a história de há 70 anos, dissolveram os ideais que cimentaram a construção europeia. O mais extraordinário é olhar para os que há tão pouco tempo sairam do jugo soviético e foram justamente recebidos na União Europeia a revelarem comportamentos xenófobos. Tão extraordinário como a tolerância dos seus pares. Mesmo os que enchem a boca de solidariedade e de ética regateiam sem vergonha. O governo espanhol, por exemplo, em resposta ao pedido da Comissão europeia para que acolha 5849 refugiados diz só aceitar 2749...

Tantas imagens de dor e crueldade à nossa porta, nas nossas ruas, e tanta indiferença. Tanto egoísmo, mesquinhez e repulsa. Parece que não há cadáveres que bastem, não há desespero que nos levante os olhos, não há resposta para os que apenas querem viver. Viver.

No meio desta Europa denorteada, assustada, velha, decadente, ainda assim privilegiada, a chanceler alemã revela uma lucidez e uma responsabilidade assinaláveis. A Alemanha, mesmo com muitos demónios indomados, tem sido um bom exemplo de acolhimento de refugiados. Não apenas por solidariedade e generosidade, nem só pela consciência da história do século XX, mas por interesse e visão de futuro. A Europa está velha, precisa de gente, de mão de obra, de futuro. A Alemanha acolheu nos últimos anos mais de 800 mil imigrantes.

A barca europeia, como gosta de dizer Eduardo Lourenço, está carregada de passado, de encontros e desencontros de muitas e variadas gentes, de conhecimento e progresso civilizacional. Expandiu-se por boa parte do mundo, retalhou-o e dominou-o. Desfeitos os impérios, nem por isso se apaziguou. Foi capaz de fazer da morte uma indústria. Hoje, vagueia como uma espécie de museu do mundo, não se dando conta de que vai perdendo o pé, perdendo mundo, perdendo futuro que a sustente. A cegueira dos seus muros não é mais do que o resultado de ter abdicado da história, do seu papel do outro lado dos mares, das ligações privilegiadas que construiu ao longo dos séculos, da responsabilidade como defensora intransigente da paz, das liberdades e do progresso dos povos.

A imagem daquela criança que deu à costa no Mediterrâneo é bem o exemplo do naufrágio europeu. Uma Europa que abandona os que lhe querem dar vida está a morrer. Somos nós que estamos a morrer. Os muros são a nossa condenação. E a nossa vergonha.

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