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António José Teixeira

E depois do debate

O naufrágio da humanidade espelhado naquele corpo de criança que deu à costa, como se fosse um detrito, arrepia. Mas não suficientemente. Um polícia recolheu-a nos braços como se a fosse embalar. Curvado, aquela criança pesou decerto na sua e em muitas consciências. Mas não suficientemente. Aquela criança fugia com outras crianças da Síria, passara pela Turquia rumo à Grécia. Corriam do inferno sírio, da barbárie à solta e da fome. Ninguém as viu e ouviu. Ninguém quis saber. Ninguém se importou. É duro olhar para aqueles corpos estendidos, inertes. Mas não suficientemente.

No final, bastou olhar para os fácies dos contendores para se perceber quem se tinha saído melhor. Estando no poder, Passos Coelho tem feito campanha em ambiente protegido. Expõe-se pouco, poucas entrevistas, poucos debates, muito defensivo. Na oposição, António Costa precisa conquistar terreno, aparecer, debater. A campanha não tem ajudado, as sondagens também não. Recaiam sobre ele as maiores responsabilidades no debate televisivo, oportunidade única de chegar a mais de três milhões de espetadores de uma só vez. Passos precisaria de não perder. O adversário sairia enfraquecido e a vantagem teria espaço de crescimento. Ainda assim não se diga que o primeiro-ministro se limitou a defender. Levou uma farpa que tem sido agitada com mais ou menos vigor. Sócrates, o fantasma aprisionado, não é apenas o suspeito de corrupção, é também o governante que chamou a troika. Colar Costa a Sócrates tem sido uma tentação. Tanta, que Passos Coelho não resistiu a lembrar o fantasma a propósito e a despropósito. O exagero tem sempre um problema: vira-se contra o exagerado. O líder do PSD não levava apenas essa farpa, levou o Syriza, tal como Paulo Portas já o tinha feito no debate com Catarina Martins. Mas apenas a insinuou. Pensava que a pesada herança de Sócrates conjugada com a melhoria de alguns indicadores económicos seria mais do que suficiente. Uma combinação de defesa do legado com contra-ataque cirúrgico foi a fórmula. Com o que não contava era com o ataque permanente de António Costa, gráficos de Gaspar e casos cirúrgicos pouco simpáticos. Do ponto de vista do combate, da convicção, o líder do PS ganhou aos pontos. Quanto ao esclarecimento e à substância, de um e de outro lado, muito pouco. Dir-se-á – e é verdade – que estes duelos dificilmente deixam grande clareza. Mostram capacidade política, habilidade argumentativa, eficácia comunicativa, empatia. A vantagem de Costa esteve aqui.

Pedro Passos Coelho tinha uma dificuldade que parecia inultrapassável há um ano: a austeridade. E uma vantagem: a melhoria do ambiente económico. A dificuldade atribuída a Sócrates e ao alegado herdeiro Costa. Narrativa simples. António Costa tinha uma vantagem promissora: a austeridade além troika e resultados devastadores. Dificuldade: alguns números e a confiança na economia têm vindo a melhorar. Daí a sensação de empate que a generalidade das sondagens tem revelado.

O debate televisivo não terá alterado significativamente a relação de forças, mas deixou um novo alento aos socialistas. Apenas isso. Até porque falta o fundamental. Nem PS nem a coligação esclareceram ainda o seu programa para os próximos quatro anos. Muito passado sem futuro, quando precisamos todos de saber com o que podemos contar, já a partir de 4 de Outubro. O debate está feito. Vamos agora esclarecer o que nos espera no próximo futuro.

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