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António José Teixeira

Vem aí meio ano de campanha

Roma já era um grande império quando os irmãos Quinto e Marco Túlio Cícero trocaram ideias sobre as artes de ganhar eleições e de governar um país. Marco era um grande orador, condição importante para o sucesso político. Quinto era tido por mais pragmático e em nome desse pragmatismo terá escrito ao irmão (há dúvidas sobre a real autoria) um conjunto de conselhos na altura em que Marco se candidatava a cônsul da República. Quando nos aproximamos do final da nossa campanha eleitoral, vale a pena lembrar como a história se repete e como os mecanismos do poder são intemporais.

Alguns exemplos: garantir o apoio da família e dos amigos, encontrar pessoas que representem como se elas próprias fossem o candidato, cobrar todos os favores em dívida, construir uma ampla base de apoio, apresentar-se como se fosse alheio ao jogo político e captar o apoio de grupos de interesse, organizações locais e populações rurais ignoradas por outros candidatos, prometer tudo a toda a gente, ter capacidade de comunicação, conhecer e explorar as fraquezas dos candidatos rivais, adular os eleitores, despertar a esperança nas pessoas... Até mesmo os eleitores mais cínicos desejam acreditar em alguém! E quanto a promessas, Quinto diz a Marco que os eleitores ficam mais zangados se o político se recusar a prometer o que eles desejam do que se, mais tarde, vier a falhar. Marco ganhou a eleição e foi um bom político, ostentou mesmo o título de Pai da Pátria. Quinto seria magistrado e depois governador. Ambos desafiaram poderes e, por isso, foram assassinados, na mesma altura em que caía a República e se levantava o Império.

Muitos séculos volvidos, os tempos são outros, mas a natureza humana e a lógica dos poderes não mudaram. Os camaleões e o espetáculo nem sequer revelaram novas cores... Narrativas simplistas sobre o passado, conjugadas com sinais de recuperação presentes, ou dissimulações entre muitos silêncios parecem dar frutos. O mesmo se diga da sementeira de receios a envolver os competidores, da multiplicação de formandos precários, da contratação de médicos, aumento de enfermeiros ou da generosa distribuição de aumentos salariais e de subsídios. Ao contrário, quem não tem nada para distribuir, tem dificuldades de comunicação ou de explicação, assume a complexidade e gera desconfiança, dificilmente monta o cavalo do poder.

A diversidade do nosso boletim de voto de domingo é grande, bastante maior do que a representação que sairá do escrutínio. Se a generalidade das sondagens captou o caminho do voto, haverá uma nova realidade política: a atual maioria perderá a sua hegemonia. Independentemente de PSD e CDS serem, ou não, convidados a governar, o PS será o primeiro partido parlamentar, mas de pouco lhe valerá. A esquerda será maioritária, mas não se vislumbra qualquer entendimento. Tudo indica que voltaremos a eleições a meio do próximo ano, já com novo Presidente da República.

António Costa não conseguiu confirmar as grandes expectativas do PS. Se não chegar ao governo, mesmo que de gestão, a porta abre-se à demissão. Teremos meio ano de campanhas várias e sobrepostas: partidárias (quem perder pagará esse preço), presidenciais (reforço ou contrapeso das legislativas) e governamentais (palco privilegiado para preparar eleições). Isto enquanto pairam pesadelos vários, do BPN ao Novo Banco, da economia sem mudanças estruturais, do endividamento mais e mais pesado, do desemprego duradouro de jovens e menos jovens, de uma Europa à deriva, de um Portugal demasiado envelhecido, que continua a perder os seus melhores, sem política de imigração que lhe devolva vitalidade. Ao tempo da República romana, já Marco Túlio Cícero tinha percebido que a imigração torna um país mais forte. Algo difícil de discutir por estes dias. Na arte de bem governar de Cícero há uma preocupação com o equilíbrio de poderes, com o compromisso, com a inteligência (não confundir com esperteza) e pelo caráter, por manter os amigos por perto e os inimigos ainda mais perto, pelo compromisso, por não aumentar os impostos e pelo combate à corrupção. Talvez questões para novas campanhas...

Nota: a Gradiva editou nos últimos anos livros dos irmãos Cícero. Vale a pena lê-los.

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