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Bernardo Ferrão

Passos Coelho já não se ri

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor de Informação

No dia em que Mário Centeno se estreou no Parlamento, já lá vão três meses, foram notícia as gargalhadas de Passos Coelho. Sentando no seu novo lugar, na primeira fila da oposição, enquanto ouvia o ministro, o ex-PM ria-se muito. E com gosto. Na semana passada, quando o Orçamento do Estado foi aprovado, Passos já não se riu, bem pelo contrário, esteve sisudo, esfíngico mesmo – pudera! António Costa tinha superado mais uma etapa.

Toda a gente reconhece, incluindo o próprio primeiro-ministro, que, apesar dos obstáculos que têm sido ultrapassados, a tarefa para o Governo não é fácil. O equilíbrio entre Bruxelas e as esquerdas exige engenho político diário e grandes doses de jogo de cintura – mas Costa já mostrou ser exímio nessas artes. Mas se para o PM o caminho é de pedras, Passos sabe que, também no seu caso, o contador está em marcha. Por cada dia a mais de “geringonça”, é um dia a menos para Passos Coelho.

O PSD não costuma ser muito paciente com as lideranças, sobretudo com as que perdem o poder e ainda para mais se se mostram pouco empolgantes. Não quero com isto dizer que a liderança está em causa. Não, não está, até porque o partido não se soube renovar e não existe (ainda) um sucessor à altura – Moreira da Silva não empolga, Luís Montenegro ainda tem muito para andar e Maria Luís está queimada. No congresso de abril vão notar-se sinais e discursos menos alinhados, mas nada de transcendente. Nada que o perturbe. Para já.

O problema está no caminho que o líder social-democrata tem vindo a trilhar. Ao contrário do CDS, que percebeu que tinha de virar a página – e aposta em fazer diferente do PSD -, Passos quis permanecer. E fez bem. Mas fê-lo com uma agenda do contra. Não aprova nada. Parece amuado. E permite que Costa o remeta todos os dias para o casulo político. Ao apelar aos consensos, com a ajuda de Cristas e do aliado Marcelo, o chefe de Governo sabe que vai isolando o adversário.

Ao pôr as fichas todas na desgraça da “geringonça”, Passos Coelho não só contribui para unir as esquerdas, como sabe que está a apostar alto, e pela negativa. E caminha para um beco político de difícil saída. Se a imagem do político que só sabe governar com austeridade já lhe assenta que nem uma luva, com esta estratégia Passos autolimita-se, e está a permitir que o vejam apenas e só como o político dos resgates.

Estar na oposição não é fácil, ainda para mais depois de ter ganho as eleições. Mas a forma como o PSD de Passos tem assumido esse papel está a ser percecionada como demasiado desfasada. Não só no tempo, como na atitude – sobretudo neste novo ciclo político dos “afetos”. Passos, que ganhou eleições com a agenda da austeridade, acredita que realidade virá ao seu encontro, e está no seu direito. Não é ele que tem de mudar, é o país que acabará por lhe dar razão. O problema é que entanto isso não acontece, não só se desgasta a ele como arrasta o PSD. Não se prevendo uma crise política nos tempos mais próximos, e com as autárquicas ainda distantes, quanto tempo resistirá Passos nesta amarga liderança? Agora quem se ri é Costa. E Marcelo também.

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